'Estarrecida': filha de Di Cavalcanti condena ataque à pintura do pai e explica origem da obra

Elisabeth Di Cavalcanti acompanhou pelo noticiário, "chocada", as manifestações golpistas deste domingo (8), em Brasília. Diz ter ficado ainda mais "estarrecida" quando viu o que fizeram com uma tela de seu pai, o pintor Di Cavalcanti (1897-1976). Uma pintura do artista carioca datada de 1962, sem título, que estava no Palácio do Planalto, foi perfurada em seis pontos.

Avaliada em R$ 8 milhões: Restauração da tela de Di Cavalcanti danificada por terroristas pode levar três meses

Mais prejuízo: Terroristas destroem relógio que foi dado de presente para a família real pela corte de Luís XIV

Modernista pioneiro: Quem foi Di Cavalcanti, artista que teve obra atacada a facadas por golpistas em Brasília

Para Elisabeth, atacar a obra de seu pai é atacar a memória do Brasil.

— Como você vai fazer isso com um patrimônio? A pessoa devia estar com muito ódio, muito ensandecida, para apunhalar seis vezes um painel do Di Cavanti — lamenta a herdeira. — Quem fez isso certamente não conhece Di Cavalcanti, e não deve conhecer nada. Esse trabalho é a memória brasileira. Meu pai era um pintor que fez arte social voltada para o povo, foi o pintor que mais soube traduzir a brasilidade.

A obra danificada no Planalto vem sendo chamada de "As mulatas" nas redes sociais, mas Elisabeth Di Cavalcanti explica que seu pai não dava título aos seus trabalhos.

— Esse quadro também já apareceu muito na mídia com o nome "Mulheres na varanda". Mas ele não intitulava as obras, quem fazia isso eram colecionadores e agentes do mercado secundário — diz.

A origem da obra, de acordo com a filha do artista, pode remeter à companhia de navegação estatal Lloyd Brasileiro, fundada em 1894 e extinta em 1997.

— A pintura provavelmente foi executada sob encomenda da Loyd Brasileiro. Eles tinham navios turísticos, que faziam viagens do Rio para Buenos Aires, por exemplo, e compraram essa tela para decorar o salão nobre de um dos navios da companhia. Depois que a Lloyd acabou, essa obra foi parar na sede do governo brasileiro.