‘Estava ouvindo música na rua e guarda atirou com bala de borracha’, denuncia educadora trans

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Felipa Drumont gravou vídeo em que relata agressão e mostra o ferimento da bala de borracha. (Fotos: Reprodução)
Felipa Drumont gravou vídeo em que relata agressão e mostra o ferimento da bala de borracha. (Fotos: Reprodução)

por Jeniffer Mendonça

Na sexta-feira (5/11), o país ficou em luto por causa da morte repentina e trágica da cantora sertaneja Marília Mendonça, em um acidente de avião em Minas Gerais. Naquele dia, a educadora Felipa Drumont, 30, também foi impactada com a notícia e, voltando para casa, estava ouvindo as músicas da artista em uma caixinha de som e cantando.

Por volta das 18h40, ao passar pelo cruzamento das alamedas Cleveland e Glete, no bairro da Luz, região conhecida de forma pejorativa como Cracolândia no centro da capital paulista, ela denuncia que foi abordada de forma truculenta pela GCM (Guarda Civil Metropolitana). “O guarda falou ‘abaixa a música, viado'”, lembra. “Daí eu respondi, de forma educada, que eu não era viado, que ele não tinha intimidade para me chamar assim, que eu trabalho, que eu não era analfabeta, porque depois ele me xingou de um monte de nome, de lixo, de raça do caralho”, relatou à Ponte.

Em seguida, conta que sentiu que foi atingida por uma bala de borracha no abdômen. “Ele logo levantou a arma e atirou em mim, depois entrou dentro da viatura”. Ela aponta que tentou filmar após o disparo, mas o celular estava com a bateria fraca e conseguiu registrar apenas alguns segundos do momento em que o guarda entra na viatura, cuja placa é CUH-3016. “Ele agiu assim por causa da minha sexualidade e ali parece que virou ponto para agir com violência contra as meninas trans, contra as travestis”, critica.

No mesmo local, em 30 de setembro, a costureira Laurah Cruz, 33, foi agredida com golpes de cassetete por um guarda. Ambas integram o coletivo Tem Sentimento, que auxilia mulheres cisgêneras (que se reconhecem no corpo que nasceram) e transgêneras no centro da cidade a terem independência financeira a partir da geração de renda. Na ocasião, Laurah relatou à reportagem que buscava doações para o coletivo quando foi abordada e uma mulher que passava registrou o momento das agressões. “Ele chegou perguntando o que era, eu falei que era roupa, ele disse que queria ver tudo, coloquei a sacola no chão e já pisou em cima, jogou o spray de pimenta três vezes na minha cara”, denunciou. “Eu sabendo dos meus direitos, comecei a debater e ele pegou e correu atrás de mim, quase fui atropelada.”

A costureira registrou a agressão na Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) da Polícia Civil. À Ponte, ela disse que soube que o guarda foi identificado e afastado das ruas, mas não sabe como está o andamento do inquérito.

Felipa também fez um boletim de ocorrência no 2º DP (Bom Retiro) e apontou que o agressor é um homem branco, aparentando ter cerca de 50 anos e com cabelo grisalho. “O que mais me indigna é que a gente faz tudo certo, a gente questiona os nossos direitos e ficamos como erradas, como se a gente não tivesse direito de ir e vir, além de passar por todo um processo burocrático para conseguir justiça”, critica. “É a segunda vez, em menos de dois meses, que eu levo bala de borracha, da outra vez tentaram acertar minha amiga na Praça Princesa Isabel”, denuncia.

O que diz a prefeitura

A Ponte procurou a assessoria da Secretaria Municipal de Segurança Urbana sobre as duas abordagens às vítimas, se os guardas foram identificados, se existe protocolo de atendimento e abordagem LGBT+ e por que estão ocorrendo essas ações. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

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O que diz a Polícia Civil

A reportagem também procurou a assessoria da Secretaria da Segurança Pública sobre o andamento das investigações e aguarda um retorno.

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