'Este momento pede uma literatura engajada', diz Julián Fuks

Ruan de Sousa Gabriel

SÃO PAULO – O escritor paulistano Julián Fuks já havia ocupado ruas e praças em protestos, mas nunca um prédio. Até que, em 2016, foi convidado a participar de uma residência artística no Hotel Cambridge, um prédio ocupado pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), em São Paulo. No meio da madrugada, junto com militantes sem-teto, ele ocupou um prédio abandonado, que no passado abrigara uma repartição pública, na Avenida 9 de Julho, perto do Cambridge.

Essa madrugada é descrita em “A ocupação”, o novo romance de Fuks, um autor conhecido por embaralhar ficção e realidade. O narrador mistura sua voz às vozes de outros moradores da ocupação, como um refugiado sírio e a líder dos sem-teto. Fora da ocupação, ele cuida do pai doente e se espera seu primeiro filho – procriar em tempos de retrocesso político, aliás, é um dos temas de “A resistência”, o premiado romance anterior de Fuks.

Para escrever “A ocupação”, Fuks também participou do Programa Rolex de Mestres e Discípulos. O escritor angolano Mia Couto não só o orientou, como também escreveu um dos capítulos do livro. Em entrevista ao GLOBO, Fuks comentou o diálogo com Mia e o que entende por “literatura ocupada”.

Como foi participar de uma residência artística no Hotel Cambridge ocupado?Depois do filme da Eliane Caffé, “Era o Hotel Cambridge”, o movimento quis se aproximar das artes e convidou diversos artistas para residências ali. No começo, voltei aos tempos de jornalista e comecei a entrevistar as pessoas sobre como tinham ido parar ali. Aos poucos, fui sendo convidado a participar do movimento. A experiência mais forte de toda a residência foi a ocupação do prédio na 9 de Julho em uma madrugada. Antes, meu olhar estava muito voltado para o individual, não para o coletivo. Quase inconscientemente, todo o processo inicial foi se perdendo. Perdi o gravador das entrevistas e o caderno de anotações. Aceitei que queria perdê-los e me abri à impressão subjetiva. Frequentei diariamente a ocupação por três meses. Depois, continuei frequentando, acompanhando assembleias e participando da luta.

Como foi ocupar um prédio?Bem marcante. No começo, você vê aquilo como uma aventura, mas problematiza esse sentimento. Não é uma aventura, uma diversão, mas algo fundamental e necessário para aquelas pessoas. Havia muito mais medo por parte dos moradores, dos sem-teto, do que de nós, artistas, que não éramos militantes e não sentíamos aquilo como tão arriscado, porque não sofremos diretamente a violência do Estado. Essas tensões, esses conflitos, estavam muito presentes. Ao mesmo tempo, havia uma vitalidade enorme em ocupar aquele espaço em ruínas, que, muito rapidamente, transformado em casa. Vi aquele verso no Caetano se inverter: parece que ainda é ruína e já é construção. É construção política, social e de alcance impressionante.


Na carta a Mia Couto, o narrador afirma: “Só o que faço é deixar que me ocupem, que ocupem a minha escrita: uma literatura ocupada é o que posso fazer neste momento”. O que é uma literatura ocupada?De partida, desejava que minha voz fosse ocupada pelas vozes dos outros, que outros discursos além do meu emergissem no livro, e assim a autoficção se fizesse menos narcisista. Proponho uma literatura ocupada pelo presente, por este tempo que nos avassala, nos oprime. Ocupar tem sido o ato político mais contundente neste contexto: ocupar ruas, escolas, edifícios. A literatura também deve ser um desses espaços ocupados, mais um terreno de luta e resistência. Continuo no âmbito da autoficção, mas de uma autoficção que deseja se emancipar de seu caráter estritamente autobiográfico e refletir para além dos dramas comezinhos do escritor de classe média.

Na carta ao narrador, Mia diz que “a literatura deve afirmar sua própria soberania” e que “a literatura permanecerá para além da ocupação”. Essas declarações não se opõem à sua concepção de “literatura ocupada”?A minha indagação – como a literatura pode participar ativamente da política – não se coloca para o Mia. Para ele, a literatura pode passar ao largo da política e ainda preservar seu sentido. Respeito essa posição, que também já foi minha. Na verdade, minha posição oscila com os tempos. O momento pede uma literatura engajada. Essa passagem que você citou é interessante. Ao longo do livro, “ocupação” sempre tinha sentido positivo. Na carta do Mia, ela surge pela primeira vez no sentido negativo, como é negativa a ocupação do poder por este governo abjeto. O Mia abriu meus olhos para esse aspecto, que havia me escapado.

Como se deu o diálogo entre vocês?A diferença marcou nosso diálogo. As afinidades também. O Mia me estimulou a me soltar, a me afastar de mim, a dar espaço no meu livros a outras vozes e olhares, até que se fez claro que ele deveria ser um dos ocupantes do livro. Escrevi uma carta performática para ele e a resposta dele tinha que estar no livro. Uma literatura ocupada é arriscada, porque eu jamais editara o vetaria o Mia. O capítulo dele é lindo. Esse eu posso elogiar sem problemas (risos).

"A ocupação"Julián FuksEditora: Companhia das LetrasPáginas: 134 R$ 44,90