Estereótipos reforçam desumanização da população negra

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(Imagem: Isabela Alves/@egunzinha)
(Imagem: Isabela Alves/@egunzinha)
  • O senso comum perpetua uma imagem negativa acerca de pessoas negras, processo ligado ao período de escravização no Brasil e que se adapta, de tempos e tempos, a novos formatos, como o “negro militante” e a “negra raivosa”

  • Confira a sétima e última matéria da série “O mito da abolição”, que toma como ponto de partida o 13 de maio para refletir sobre as práticas racistas que perduram na nossa sociedade e demonstram a importância de olhar para o hoje desmistificando mentiras contadas no passado

Texto: Roberta Camargo Edição: Lenne Ferreira e Nataly Simões

A desumanização sofrida pela população negra ao longo da história do Brasil serviu de base para a construção de estereótipos que marcam as vidas de homens e mulheres. A reprodução desses padrões de pensamento, que têm origem ainda no período escravocrata, perpetuam preconceitos e injustiças a exemplo do senso comum de que homens negros e mulheres negras possuem mais força para desempenhar trabalhos braçais.

De acordo com a definição antropológica de estereótipo, o termo se refere a uma imagem criada a partir do senso comum. Em um país racista, esse senso reproduz imagens que nem sempre correspondem à realidade e ainda desumaniza indivíduos, como aponta a antropóloga Marivânia Conceição Araújo. "A quem interessa a objetificação da mulher negra, a desvalorização das lutas políticas e a disseminação sistemática que tira a humanidade da população negra?", introduz a pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Entre as principais consequências geradas pela reprodução constante de estereótipos sobre pessoas negras está a falta de empatia. "A gente vive uma violência simbólica que diz que algumas vidas são mais importantes que outras, que algumas mortes doem mais. O imaginário social da sociedade brasileira concebe o branco de uma forma que está sempre atrelada à superioridade”, pontua Daniara Thomaz, pesquisadora e também antropóloga.

Para a estudiosa, a reprodução de estereótipos define limites para a subjetividade das pessoas negras. “Quando alguém diz que um negro tem fenótipo de bandido, a gente transforma os elementos socioculturais em características biológicas. A gente limita aquela pessoa e todo o grupo social que ela pertence”, exemplifica.

Os estereótipos racistas fazem parte da formação do Brasil e estão vinculados ao processo de escravidão vivida pela população negra por mais de 400 anos. De acordo com Daniara, atribuir a pessoa negra um viés mais agressivo e selvagem é uma das consequências do passado escravagista, que ainda se faz presente.

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Grande mídia ajuda a difundir estereótipos

O homem negro visto como malandro, a mulher negra hipersexualizada ou barraqueira são alguns exemplos clássicos de estereótipos racistas presentes na mídia. A escritora Lavínia Rocha observa que os personagens da dramaturgia são apresentados de forma estereotipada.

"Descrever a cor de uma pessoa negra como comida, a comparando com chocolate, café ou até a animalização dos personagens são situações comuns e super nocivas. São resquícios escravocratas nas histórias", analisa.

Lavínia escreve contos infanto-juvenis e classifica o papel da arte, principalmente da literatura, como de extrema importância na desconstrução de estereótipos. "É uma forma de mostrar que a gente pode ser o que quiser. Quanto mais a gente conseguir trazer isso, mais os estereótipos podem ser desconstruídos, principalmente para crianças", avalia.

Segundo a escritora, é importante diferenciar representação e representatividade. Representação está ligada à tentativa de cumprimento de uma regra, como uma cota para que existam personagens negros em uma história. Já a representatividade é a forma como o personagem é apresentado, suas características e espaço que ocupa na história. “Não resume sua narrativa à questão racial”, descreve Lavínia.

O ator Kauê William já enfrentou dificuldades para encontrar papéis representativos na sua carreira. “É uma dificuldade muito grande encontrar personagens que fogem do estereótipo do negro no lugar de subalternidade”, relata o artista.

Ao longo dos anos, os estereótipos racistas difundidos pela mídia também têm se transformado. Os mais comuns como o da mulher negra sempre na posição de empregada doméstica, nas novelas, aos poucos deixa de ser tão comum, dando lugar a outros. “Não dá pra deixar passar o elenco do BBB 21, que reforçou os estereótipos do negro militante pedante, arrogante e a mulher negra raivosa. São formas mais refinadas de um sistema que se adapta”, reforça a antropóloga Daniara.

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Dá para desconstruir esses estereótipos?

A resposta é sim. Entre as alternativas para combater a propagação de estereótipos e os efeitos negativos sob pessoas negras, a pesquisadora Marivânia aponta o diálogo. “É preciso que a gente seja visto como gente. Parece simples, mas não é”, explica a intelectual, que analisa o caminho para a desconstrução da imagem pré-concebida da população negra como árduo e longo. “É um exercício de várias frentes e por isso é tão difícil”, complementa.

A antropóloga Daniara relembra que os estereótipos “limitam a percepção acerca das pessoas” e isso se perpetua também a partir dos hábitos de consumo da população. No mundo ocidental e no Brasil, especialmente, a população tende a consumir filmes e séries americanas. Um dos caminhos é consumir artes fora do padrão branco e americanizado e fortalecer produções de valorização das características e cultura negras.

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