'Estou ansioso para ouvir o juiz falar: acabou', diz, antes de audiência, violoncelista da Orquestra da Grota preso injustamente no ano passado

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RIO - Presos injustamente em setembro do ano passado numa abordagem policial, o violoncelista Luiz Carlos Justino, da Orquestra de Cordas da Grota, participa nesta quarta-feira de audiência de instrução e julgamento do caso. Para apoiar o amigo, um grupo de 12 músicos que tocam na orquestra com o jovem se apresenta na calçada do Fórum de Niterói. Justino, que chegou a ficar quatro dias preso e hoje faz terapia para tentar superar o trauma, diz que espera da Justiça o encerramento do processo com o seu nome.

- Estou ansioso para ouvir o juiz falar "acabou" - diz o jovem, de 24 anos, que seguia para casa carregando o seu instrumento quando foi abordado por policiais no dia 2 de setembro de 2020 no Centro de Niterói. -Foi uma baita covardia o que aconteceu comigo. Se eu não fosse músico, talvez não tivesse conseguido me livrar da prisão.

Contra ele, havia um mandado de prisão: Luiz Justino, então com 23 anos, tinha sido acusado de assalto a mão armada após ser reconhecido, em 2017, apenas por um fotografia que constava no livro da 79ª DP (Charitas). Ele ficou quatro dias preso, em dois presídios diferentes, até ser solto por decisão do juiz André Nicolitt, que demonstrou perplexidade com o caso. "Por que um jovem negro, violoncelista, que nunca teve passagem pela polícia, inspiraria desconfiança para constar em um álbum?", questionou o magistrado.

Casado e pai de um menina de 3, o músico, no momento do crime do qual foi acusado, se apresentava, como contratado, numa padaria em Piratininga, ao lado de outros rapazes da orquestra. Ele desconhecia a existência de qualquer denúncia contra ele, nem nunca havia sido intimado.

-Hoje faço terapia, e precisei de ajuda através de uma vaquinha on-line para conseguir mudar de casa. Estou morando fora da comunidade da Grota por causa do processo, para que não digam depois que não me encontraram - diz ele, preocupado com o andamento do caso na Justiça e que costuma tocar com os colegas na Rua Paulo Gustavo, em Icaraí. - Mas, se Deus quiser, isso vai acabar hoje. Continuo tocando com a orquestra, mas com dificuldade de me concentrar. Vira e mexe me pego pensando nos dias em que fiquei preso, trancado num lugar imundo. Havia um detento que gemia de dor a noite toda. O que eu vivi não sai da minha cabeça.

Amigo de infância de Justino, Rodrigo Soares, violoncelista de 25 anos, acusa a polícia de racismo. Ele é um dos jovens que se apresentam hoje na porta do Fórum.

-Conheço ele desde o jardim de infância. Começamos a tocar violoncelo no mesmo dia. Ele voltava para casa com o seu instrumento quando foi preso, por racismo. É muita revolta o que a gente sente. Nós que somos negros não podemos andar de capuz ou de chinelos na rua que somos parados pela polícia - diz o amigo, também integrante do Espaço Cultural da Grota, um dos projetos culturais mais conhecidos de Niterói.

Recentemente, a Justiça, acatando pedido do advogado do jovem, mandou retirar a foto de Luiz Carlos Justino do álbum da delegacia.