Estratégia de Hernández, o 'velhinho do TikTok', é fruto de ex-marqueteiro de Petro

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Em março, no momento em que Ángel Becassino, 74, aceitou o pedido de Rodolfo Hernández, 77, para ajudá-lo na campanha à Presidência, o candidato populista estava na quinta posição nas pesquisas.

O estrategista argentino, radicado desde 2000 na Colômbia, já havia trabalhado em 2014 com Juan Manuel Santos, na eleição em que o hoje ex-presidente saiu vitorioso, e em 2018 com Gustavo Petro, no pleito no qual o esquerdista foi derrotado por Iván Duque. Agora, Becassino é o responsável pela estratégia que fez Hernández disparar até o segundo turno, cuja votação ocorre no próximo domingo (19).

"Trabalho com diferentes candidatos. Não vejo contradição por ter feito a campanha de Petro e agora estar do outro lado", afirmou Becassino à Folha, por telefone. "Petro mudou muito, maquiou-se muito, está se esforçando demais para parecer ser outra pessoa. Outro dia o vi numa foto de propaganda e parecia um modelo da [grife] Armani. Não gosto dessas coisas, Rodolfo é Rodolfo, não há maquiagem."

A ideia de transformá-lo no "velhinho do TikTok" se mostrou eficiente entre jovens, e Becassino diz que o investimento na popular rede social ocorreu, principalmente, devido à falta de fundos para a campanha.

"Temos 10% do orçamento dos principais candidatos. O TikTok é barato e oferece uma imagem mais descontraída do que Rodolfo é de verdade. Ele tem falas simples, é categórico, não quer papo furado e vai direto ao assunto. Além disso, fala como um colombiano comum. Deu certo até aqui."

O que não deu certo, afirma o estrategista, é a "necessidade de comparação" da imprensa para definir quem é Hernández. "Eles se esforçam para rotulá-lo como [o presidente do Brasil Jair] Bolsonaro, [o deputado argentino Javier] Milei, [o líder de El Salvador Nayib] Bukele, [o ex-presidente dos EUA Donald] Trump. De todo lado me perguntam isso. Só tenho a dizer, novamente, que Rodolfo é Rodolfo."

As comparações se devem, por exemplo, a declarações machistas do candidato, como "o ideal seria que as mulheres se dedicassem à criação dos filhos em casa" e "as pessoas não gostam de mulheres metidas no governo", que o marqueteiro diz serem "fáceis de driblar". "O que ele diz sobre as mulheres soa machista, claro. Mas ele não diz que irá contra os direitos delas ou que vai se meter nisso. Pelo contrário, vai promover melhorias em temas importantes para elas, como trabalho, alimentação, salários, educação."

Becassino lembra, ainda, que Hernández promete dar atenção à questão dos "desplazados", que tiveram de deixar suas casas e se deslocar para outras partes do país devido ao conflito com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e com outras guerrilhas, como o ELN (Exército Nacional de Libertação), um problema que atingiu, ao todo, sete milhões de pessoas, a maioria das quais mulheres.

"Um setor pode considerar o que ele disse machismo, ficar com raiva, mas a maioria se identificará [com as propostas]. Agora, ele continuará pensando o que pensa sobre as mulheres, é preciso aceitar isso".

O contexto político da Colômbia, diz o estrategista, tem sido um fator positivo para a escalada de Hernández, já que o ex-presidente Álvaro Uribe, outrora dono de influência decisiva, está em baixa, como a parca popularidade do atual líder do país, um afilhado político dele, prova. Federico "Fico" Gutiérrez, o candidato que teve apoio do governo, foi ultrapassado por Hernández na reta final do primeiro turno.

Por outro lado, Becassino admite que o cenário também favorece Petro, já que o ambiente colombiano é de mudança política. Para ele, no entanto, a figura do esquerdista que ele ajudou a vender quatro anos atrás "ainda gera muito medo, ainda que ele venha tentando e fazendo tudo para aplacar esses medos". "Fica parecendo que está forçando a barra para parecer moderado. A Colômbia não está para mudanças muito bruscas, e Hernández pode ser a resposta para isso. Os colombianos comuns sabem disso."

Questionado sobre a ausência do candidato populista nos debates, o marqueteiro diz que, no primeiro turno, eles não valiam a pena. "Os encontros se transformaram em batalhas entre gangues de bairro." Para a volta final, a vontade que Becassino dizia haver na campanha para participar dos eventos evaporou com a justificativa de que "Petro exibia agressividade contra a candidatura de Hernández."

Na quinta (16), ele se recusou outra vez a participar de um debate, mesmo após a Justiça colombiana determinar que deveria haver um encontro para que os eleitores ouvissem as propostas dos candidatos. "Dou por concluída qualquer possibilidade de seguir a decisão da Justiça", disse ele, nas redes sociais.

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