Estratégia de Lula em Minas inclui reduzir abstenções em regiões mais pobres e frear ofensiva de Zema pró-Bolsonaro

Com a disputa acirrada pelo eleitor de Minas, a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mapeou em quais regiões deveria atuar de forma de forma mais estratégica para evitar uma virada de Jair Bolsonaro (PL) no estado. Foram duas as conclusões: conter o aumento de abstenções nas regiões norte e nordeste e frear os esforços do governador mineiro, Romeu Zema (Novo), em favor do presidente.

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No primeiro turno, o petista terminou na frente de Bolsonaro em Minas, com 48,29% dos votos totais. O atual chefe do Palácio do Planalto, por sua vez, teve 43,6%, totalizando uma diferença de 563 mil votos em relação ao primeiro candidato. O resultado, apesar de positivo, foi aquém do esperado pela campanha de Lula no estado, que projetava uma vitória de mais de 10 pontos percentuais de vantagem.

Os estudos feitos agora pelo PT, aos quais O GLOBO teve acesso, levaram em conta o resultado do primeiro turno, para presidente e governador, e as votações de 2018 nas duas rodados do pleito. A primeira constatação feita pelos levantamentos é de que as regiões onde houve as maiores abstenções são também onde Lula teve mais votos. É o caso de cidades do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri. Essas duas regiões tiveram 30% de abstenção em cada, enquanto no norte mineiro esse percentual foi de 25,3%.

Juntas, essas três áreas representem 13,7% de todo o eleitorado mineiro, e o percentual de faltosos somados representa mais de 604 mil votos. Na avaliação da campanha do PT, esses eleitores que não participaram do primeiro turno da votação são potenciais votos de Lula — considerando que ele ganhou na maioria dos municípios das duas regiões —, mas que precisam ser incentivados para irem às urnas.

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Para isso, a campanha de Lula se esforçou para conseguir garantir o máximo de municípios com o transporte gratuito para a votação no domingo. A medida beneficia sobretudo o norte e nordeste mineiro, já que é onde está o eleitorado de menor renda no estado.

A segunda constatação feita pela campanha através dos levantamentos é em quais regiões haveria maior brecha para que Zema, aliado de Bolsonaro, virasse voto para o atual presidente. Vitorioso já no primeiro turno da eleição, o governador mineiro se elegeu com o apoio de eleitores que dividiu com Lula — fenômeno que foi chamado de “Luzema”.

Os estudos da campanha mostraram que esses votos foram mais frequentes em seis regiões: Triangulo Mineiro e Alto Paranaíba; Zona da Mata; Campo das Vertentes; Regiões Metropolitana de Belo Horizonte; Central Mineira e Vale do Rio Doce. Nessas regiões, Lula foi o mais votado, ou houve um empate entre ele e Bolsonaro.

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O voto Luzema, porém, também se repetiu em regiões em que Bolsonaro venceu: Noroeste; Sul e Sudoeste, e Oeste mineiro.

Nos trackings internos da campanha, até o momento, ainda não foi possível detectar a transferência de votos dos eleitores de Zema e Lula para o atual presidente. Além disso, a campanha acredita ser possível tentar um crescimento do petista nessas regiões, visto que houve um avanço do candidato do PT na Zona da Mata e no Triangulo Mineiro quando comparado o resultado do primeiro turno de 2018 com o deste ano. Na última eleição, Bolsonaro venceu na maioria dos municípios dessas duas regiões.

— A nossa estratégia é conseguir empatar o jogo no Triângulo Mineiro e fortalecer a candidatura de Lula no sul de Minas, com o apoio de Geraldo Alckmin e de Simone Tebet — diz o senador Alexandre Silveira (PSD-MG), que encabeça as articulações políticas de Lula no estado.

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Há também a avaliação de que, mesmo que haja um aumento da abstenção, Bolsonaro pode sair prejudicado já que regiões onde saiu vitorioso também tiveram um alto percentual de faltosos. É o caso do Noroeste, do Sul e do Sudoeste de Minas, que tiveram 24,7% e 22,1% de abstenção, respectivamente. Isso representa mais de 706 mil eleitores faltosos.

Outra estratégia da campanha foi procurar prefeitos e lideranças políticas para negociar o passe livre e atraí-los para o palanque de Lula. Um dos argumentos para isso foi que as eleições municipais de 2024 se aproximam e que, com a popularidade do ex-presidente no estado, os chefes dos Executivos municipais podem se beneficiar para se reelegerem ou elegerem seus sucessores se fizerem campanha para Lula.

— Pelos nossos cálculos, temos hoje mais de 500 prefeitos que estão com Lula. Alguns se expõe mais, outros menos, mas todos têm consciência de que esse é o melhor caminho para o municipalismo e Minas Gerais. Bolsonaro não tem nenhuma realização no estado — disse Silveira.

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Minas Gerais é considerado chave para a eleição do futuro chefe do Palácio do Planalto. Desde o início da redemocratização, o candidato que venceu em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, foi quem se elegeu à Presidência.

Na véspera do segundo turno, Bolsonaro mudou seus planos e decidiu voltar a Minas Gerais neste sábado. A previsão inicial era que ele ficasse direto no Rio de Janeiro, onde participa do debate da Globo na noite desta sexta-feira e vota no domingo, mas decidiu participar de uma carreata em Belo Horizonte, capital mineira.