Estrategista argentino usou redes sociais para levar o populista Rodolfo Hernández ao segundo turno na Colômbia

BUENOS AIRES — Enquanto os demais candidatos à Presidência da Colômbia tentavam selar alianças políticas e negociar apoios, Rodolfo Hernández — que surpreendeu ao ficar em segundo lugar no primeiro turno de domingo — concentrou esforços nas redes sociais. Ele conseguiu adesões para sua candidatura de pessoas como o influenciador Yeferson Cossio, que tem 9,3 milhões de seguidores na rede social Instagram e 11,5 milhões no TikTok, num país onde votam cerca de 39 milhões de pessoas.

Além de uma legião de fãs, Cossio tem, ainda, um discurso e posições alinhadas com as principais bandeiras do fenômeno do momento da política colombiana , que, para surpresa de muitos e pânico de outros, vai disputar o segundo turno com Gustavo Petro, o candidato da esquerda, em 19 de junho.

O influenciador, um novo milionário que exibe uma vida de luxos nas redes sociais, já ameaçou renunciar à cidadania colombiana pela que diz ser a pesada carga tributária do país e que, segundo ele, é usada para financiar a corrupção dos que estão no poder. Ao anunciar seu voto no ex-prefeito da cidade de Bucaramanga, de 77 anos, Cossio argumentou que “vou votar no Rodolfo porque ele é o único que não me ofereceu dinheiro em troca de apoio”. Na conta do TikTok de Hernández, o vídeo no qual o influenciador revela em quem vai votar teve quase 700 mil visualizações.

Em seu discurso de domingo à noite, Petro declarou, em tom irônico, que “a corrupção não se combate no TikTok, se combate arriscando a vida”. Mesmo menosprezando as redes, reconheceu sua influência numa campanha que sofreu uma reviravolta inédita uma semana antes da eleição.

O cérebro por trás de Hernández, e que fez uma aposta claríssima no poder das redes sociais como motor principal de uma candidatura à Presidência, é o argentino Angel Becassino, que já trabalhou com vários políticos colombianos — entre eles o próprio Petro, em 2018. Também atuou na campanha do ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018).

Em entrevista ao GLOBO, o estrategista e publicitário contou que entrou na campanha de Hernández, seu amigo há mais de 20 anos, no fim de março, quando o candidato era considerado praticamente carta fora do baralho. Sua meta foi, essencialmente, “mostrar quem Rodolfo verdadeiramente é, não uma construção política”.

E quem é Rodolfo Hernández? Segundo Becassino, “um homem simples, de origem humilde, pais camponeses, um populista, sim, como muitos outros políticos colombianos, mas não de direita”. Rodolfo, frisou, “tem a sensibilidade social da esquerda, e a autoridade que muitos esperam da direita”. O candidato, concluiu seu estrategista, “é um populista de centro”.

Quando foi perguntado sobre declarações polêmicas de Hernández quando era prefeito de Bucaramanga, entre elas uma confissão de admiração pelo nazista Adolf Hitler, o estrategista disse que “Rodolfo se confundiu, ele não é uma pessoa culta. Disse uma frase que todos podem comprovar que pertence a Einstein, e que ele disse que era de Hitler”.

Esse tipo de debate não aparece na campanha virtual de quem tinha 10% das intenções de voto em abril e terminou com pouco mais de 28% domingo passado, contra 40,3% de Petro. Os vídeos de Hernández têm de tudo: sua mulher dizendo que “Rodolfo tem fama de bravo (o candidato já foi filmado dando um soco na cara de um vereador), mas não é bravo, é um merengue (doce)”; o candidato correndo como Forrest Gump; Hernández se comprometendo a doar seu salário como presidente “porque eu não preciso de dinheiro”; o candidato dançando rodeado de tiktokers; um casal comemorando uma festa de aniversário batizada de “Rodolfiesta”; e Hernández com um pato adotado por ele, a mensagem “com cada boa ação podemos resgatar o país” e um pedido: gravem uma boa ação, etiquetem três amigos e ponham a hashtag #amudançacomeçahoje.

— Fizemos uma estratégia para as redes sociais com conteúdos que buscam dar respostas a setores que têm necessidades fortes. Isso gerou uma corrente de sintonia, gerou o que chamamos de apóstolos, pessoas que reproduzem as mensagens que lançamos — explica Becassino.

Os pilares da campanha são mensagens com muito humor, frescor, linguagem simples e temas que buscam conectar Hernández com amplos setores da população. Segundo seu estrategista argentino, “Rodolfo interpretou o que muitas pessoas estavam sentindo e não sabiam descrever”.

— As redes sociais são um elemento, e apostamos nelas, entre outros motivos, porque somos a campanha mais barata desta eleição. E gastar pouco dinheiro foi uma decisão, faz parte de nossa mensagem — afirma Becassino.

Hernández, frisa, não é Bolsonaro nem Trump. Tem o elemento em comum de uma presença forte nas redes sociais. Mas o estrategista faz questão de marcar diferenças:

— Bolsonaro foi um personagem construído. Seu batizado, sua aliança com os evangélicos, tudo o que vimos em 2018, foi a construção de uma figura. Trump tuitava muito, mas mentiras. Rodolfo nem foi construído nem mente.

O candidato que hoje muitos consideram favorito para o segundo turno — por sua facilidade de captar grande parte dos votos de direita e até mesmo de um centro que desconfia de Petro — ainda tem muito a explicar. Seu programa de governo não é conhecido nem debatido, e existe preocupação por denúncias de corrupção que ainda não foram esclarecidas totalmente.

Seus aliados afirmam que nas próximas duas semanas Hernández vai participar de debates, saindo, finalmente, do maravilhoso e perfeito mundo das redes sociais. Becassino admite que a segunda etapa da campanha será difícil, mas diz que vê em Hernández um vencedor.

— Acho que na Colômbia ganha Rodolfo, e no Brasil, Lula — arriscou o estrategista argentino, esclarecendo que mesmo que fique com os votos da direita, seu candidato não vai fazer tratos nem qualquer tipo de acordos em troca de apoios.

Para isso, Hernández tem seus amigos influenciadores.

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