Estreante em Mundiais, seleção do Catar coloca à prova seu conceito de futebol

Há 16 anos, o técnico Félix Sanchez deixou a Espanha para fundar o “conceito de futebol” do Catar. Neste domingo, às 19h (13h, de Brasília), ele apresentará ao planeta o seu legado na abertura da Copa do Mundo entre os anfitriões estreantes em Mundiais e o Equador, no Estádio Al Bayt, pelo Grupo A. Longe de ser favorita, a seleção catari tem algumas missões: não repetir a África do Sul, último país-sede eliminado na fase de grupos, e conseguir a primeira vitória de uma equipe asiática na estreia do torneio.

Alcançar tais objetivos terá sido fruto de um plano de governo anterior a Felix, mas que se consolidou com a sua chegada em 2006 e demais membros espanhóis da comissão técnica. Dois anos antes, o governo do Catar criou a Aspire Academy, um projeto esportivo de longo prazo para o desenvolvimento de futuros campeões em várias modalidades, além da formação educacional até os 18 anos — o campeão olímpico de salto em altura em Tóquio, Mutaz Essa Barshim, saiu de lá. A academia também faz parte da agenda que pretende transformar a sociedade catari nos próximos anos, chamada de Visão Nacional do Qatar 2030, e se desvincular da imagem — estereotipada, segundo eles —dos países produtores de petróleo e gás do Oriente Médio.

O futebol é o carro-chefe, com o maior número de inscrições de meninos a partir dos 13 anos que carregam o típico sonho de ser jogador de futebol e defender a seleção. Dos 650 graduados na academia, mais da metade escolheu chutar uma bola — ou defendê-la, no caso dos goleiros. E deu certo. A seleção convocada por Félix é composta por 70%, ou 18 jogadores, de formados na Aspire, que passaram pelas mãos do treinador ao longo desses anos. Nenhum atleta do Catar que disputa o Mundial nasceu antes de 1990.

A tarefa de descobrir talentos e lapidá-los não é fácil num país com uma população que não chega a 3 milhões de pessoas, sendo que apenas 10% delas são cataris. No Catar, a dupla nacionalidade passa por um longo processo burocrático. Os filhos de imigrantes nascidos em solo catari também não são automaticamente reconhecidos como cidadãos nativos do país.

Sanchez e sua equipe conseguiram alguns bons jovens que deram um rápido retorno nas categorias inferiores. Sete anos depois de consolidar o futebol da Aspire, também chamada de Star Factory (Fábrica de Estrelas), ele assumiu a seleção sub-19. No ano seguinte, em 2014, foi campeão asiático da categoria, após um começo de competição difícil contra a Coreia do Norte. Mas conseguiu a virada graças a Almoez Ali e Akram Afif, dois garotos saídos da academia que seriam fundamentais cinco anos depois na maior conquista do futebol do Catar.

Em 2019, também sob comando de Sanchez, agora na seleção principal, a equipe conquistou a inédita Copa da Ásia ao bater, na final, o favorito Japão por 3 a 1. Ali e Afif marcaram na partida decisiva. Ali, inclusive, foi eleito MVP e artilheiro da Copa com nove gols, quebrando um recorde que durava 23 anos

Modelo espanhol

Hoje, ambos são fundamentais no esquema de Sanchez, com os dois formando a frente ofensiva ao lado do capitão Hassan Al-Haydos, que já vestiu a camisa do Catar mais de 150 vezes.

— É um ciclo de 16 anos trabalhando no país, formando um projeto de futebol que não é habitual. Seguir os passos dos jogadores e formar uma seleção nacional é motivo de muito orgulho. Isso é muito difícil de se conseguir —diz o técnico. — Quero aproveitar o momento depois desse esforço tão grande.

A escolha de Sanchez não foi por acaso. O modelo espanhol de gestão do futebol, sobretudo o do Barcelona, com uma ideia de jogo definida em todas as categorias, foi, de certa forma, transportado para o Catar. O técnico trabalhou na famosa La Masia, o centro de treinamento da base do clube, por anos antes de se jogar no desafio catari. A ida de Xavi, ídolo do Barça, para comandar o Al Saad, em 2015, também fez parte do plano de fortalecimento do jogo local.

O clube, por exemplo, cedeu metade dos jogadores que vão disputar sua primeira Copa do Mundo. Recentemente, a La Liga, que já fez intercâmbio com jogadores da academia para categorias de base de times espanhóis, lançou um MBA de esportes e entretenimento na sede da Aspire Foundation, no Catar.

Esse modelo também tem se espalhado pelo mundo com o braço Football Dreams, que busca talentos em países da África e América Latina, com filiais da Aspire. Jovens passam por peneiras, cujo principal “olheiro” é o espanhol Josep Colomer, tido como o descobridor de Messi. Se forem bem, ganham bolsas para fazer a formação no Catar.

Milhões de jovens já foram testados e aproveitados em clubes pequenos, como o belga Eupen, de propriedade da Aspire Foundation, e até pelo Barcelona, como o senegalês Moussa Wagué. O zagueiro, que hoje está na Croácia, foi o jogador africano mais jovem a marcar um gol em Copa do Mundo, na Rússia.