ESTREIA–Com Natalie Portman, “Além da Ilusão” se perde em seus excessos

Natalie Portman chega para evento de indicação ao Oscar 6/2/2017 REUTERS/Mario Anzuoni

SÃO PAULO (Reuters) - Ambição, para um filme (ou até para a vida), não é, a priori, um defeito. O problema é perder a medida dela, como dolorosamente se vê em “Além da Ilusão”, escrito e dirigido pela francesa Rebecca Zlotowski, cujos ótimos “Belle Épine” (2010) e “Grand Central” (2013) a colocaram no mapa-mundi do cinema e do circuito do festivais.

Seu novo trabalho, o mais ambicioso em escopo e orçamento – contando com Natalie Portman, no papel principal – frustra exatamente porque o potencial que a diretora demonstrou nas outras obras se dissipa num caos narrativo e de temas.

“Além da Ilusão” é um filme sobre uma dupla de irmãs americanas, Laura (Natalie) e a caçula Kate Barlow (Lily-Rose Depp), que viajam pela Europa do entre-guerras ganhando dinheiro com seus poderes mediúnicos.

O filme também é sobre a magia do cinema enquanto arte e técnica, além de aspirar a ser uma crônica sobre a alienação da elite europeia que permitiu a ascensão dos regimes totalitaristas. Além disso, é um estudo sobre os laços que unem essas duas irmãs e os fantasmas do passado de seus clientes. E tudo isso em menos de duas horas!

O filme começa muito bem com Laura e Kate fazendo uma sessão para uma sala lotada, com algumas pessoas interessadas em contatar entes queridos que morreram. A mais velha é uma espécie de mestre de cerimônias, guiando o espetáculo, cuja estrela central é Kate com seus dons mediúnicos, que chamam a atenção de Korben (Emmanual Salinger). Rico polonês radicado na França, com fantasmas para exorcizar, ele leva as duas para morar na sua mansão.

Korben também convence as irmãs a se deixarem filmar por câmeras de cinema enquanto realizam suas sessões. Mas isso não é tão simples. Cinema é, na época, uma arte em ascensão, dependendo muito dos avanços tecnológicos para se tornar mais livre. O excesso de refletores, por exemplo, é um empecilho para as americanas realizarem seus transes. Nesse momento, “Além da Ilusão” está interessado no cinema, na sua técnica e limitações, levando um tropeção do qual jamais se recupera.

Não que a diretora, com seu filme, também não esteja interessada no cinema enquanto arte e técnica, até porque, em seus trabalhos anteriores, a trama era também, acima de tudo, uma base para a construção de um clima e uma poética. Ainda assim, é preciso um fio condutor que não deixe uma aparência de conexão aleatória, como é o caso aqui.

Não custa muito e Laura torna-se uma atriz de cinema, tentando subir na vida e sendo hostilizada anonimamente por colegas com xingamentos de batom no espelho. Korben também está sendo atacado por ser estrangeiro e judeu. “Além da Ilusão”, por sua vez, luta para manter alguma coerência e coesão, mas não é fácil.

Apesar da bela direção de arte, não há muita atmosfera de uma Paris dos anos de 1930 – o filme poderia se passar em qualquer outra época. Natalie desfila feições de incrédula o tempo todo – talvez realmente nem ela entenda o arco de sua personagem. Lily-Rose Depp (filha da atriz e cantora Vanessa Paradis e Johnny Depp), no entanto, parece se encontrar no filme, até porque sua personagem faz mais sentido do que a de Laura. Sua interpretação, algo meio etérea, algo que não é deste mundo, tem até um quê daquela de sua mãe em “A mulher e o atirador de facas” (99). A jovem atriz parece estar num filme completamente diferente dos outros intérpretes e personagens, o que é uma pena: se todos estivessem no mesmo filme que ela, “Além da Ilusão” seria melhor.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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