Filme B com orçamento, ficção científica “Vida” é tensa e assustadora

Ator Ryan Reynolds, que está no filme "Vida" 3/2/2017 REUTERS/Brian Snyder

SÃO PAULO (Reuters) - O slogan que estampava o pôster do “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979), “No espaço, ninguém pode ouvir você gritar”, ganha uma nova leitura no suspense de ficção científica “Vida”. Embora não tão original assim, este filme B com orçamento e elenco famoso ganha na medida em que cria um clima de terror e recicla os clichês do gênero com sagacidade.

A premissa é o bom e velho alienígena entre nós, aterrorizando uma equipe de cientistas numa estação espacial internacional. Dirigido pelo sueco Daniel Espinosa (“Crimes Ocultos”), o filme já começa com uma forma extraterrestre sendo trazida de Marte para dentro da nave, despertando a curiosidade do time. Trata-se de uma única célula microscópica que não parece dotada de vida, mas logo dá sinais de atividade.

A alegria dura pouco, o tempo suficiente para que alguns dos personagens sejam apresentados antes de perderem a vida – isso nem é spoiler, é simplesmente a premissa do longa. Conhecemos o mecânico Rory (Ryan Reynolds), o médico David (Jake Gyllenhaal), sobrevivente de uma missão militar na Síria, Sho (Hiroyuki Sanada), responsável pela comunicação, e os cientistas Miranda (Rebecca Ferguson), Ekaterina (Olga Dihovichnaya) e Hugh (Ariyon Bakare). A dica é a de sempre: não se apegar demais a nenhum dos personagens, porque a matança não tarda a começar e o filme surpreende por seu despojamento na ordem das mortes.

É um grupo multinacional fascinado até demais com sua descoberta, pela qual pagará um preço alto. A criatura ganha nome, Calvin (escolhido numa enquete numa escola americana na Terra) e a atenção de Hugh, que se torna uma espécie de amigo do monstro – que ainda nem é um monstro, apenas um ser pluricelular isolado numa câmara, mas não por muito tempo.

Escrito por Rhett Reese e Paul Wernick (a dupla de roteiristas responsáveis por “Deadpool” e “Zumbilândia”, entre outros), “Vida” parece ter se inspirado tanto em “Alien”, mas sem o elemento satírico e crítico da série de filmes criada por Ridley Scott, como também em “Gravidade”, de Alfonso Cuarón. Os astronautas daqui, no entanto, não parecem os mais sagazes do universo, sendo capazes de tomar as decisões mais erradas possíveis, apesar das melhores intenções. E aí reside a graça. Fossem capazes de exterminar a criatura com facilidade, não haveria filme.

Talvez exatamente pela sua previsibilidade, “Vida” é tenso – mais tenso do que muito suspense que leva essa etiqueta quase gratuitamente. Sabemos que esses personagens não têm saída. Calvin é uma criatura resistente a praticamente tudo, até fogo.

A questão é encontrar ao que ele não é resistente. Mas há tempo? O filme patina um pouco no seu ritmo, e o terço final parece mais apressado do que o restante. Mas a direção elegante de Espinosa, assim como a capacidade do elenco de manter feições sérias dizendo frases ridículas, compensa a maioria dos problemas, até chegar ao seu final, que combina uma dose de cinismo com outra de vigarice.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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