ESTREIA–“Mulheres do Século 20” investiga sucessos e fracassos dos anos de 1960

Atores Annette Bening e Warren Beatty chegam para a cerimônia de entrega do Globo de Ouro em Beverly Hills, Califórnia, EUA . 8/07/2017. REUTERS/Mike Blake

SÃO PAULO (Reuters) - Uma das primeiras cenas de “Mulheres do Século 20” envolve um carro pegando fogo no estacionamento de um mercado. Icônica, a imagem poderia ser até uma instalação artística, mas não é o caso. Trata-se do velho automóvel de Dorothea (Annette Bening), deixado pelo ex-marido, quando se separaram. Mesmo com a perda, ela não se deixa abater e até convida os bombeiros para passarem em sua casa à noite, pois está dando uma festa de aniversário. E eles vão.

Essa primeira cena já estabelece a personalidade nada melancólica da protagonista, que mora em Santa Barbara com seu filho adolescente, Jamie (Lucas Jade Zumann), e outras duas pessoas que alugam quartos na casa. Um deles é William (Billy Crudup), uma espécie de faz-tudo que está ajudando na reforma do imóvel. A outra é Abbie (Greta Gerwig), uma jovem fotógrafa recuperando-se de um câncer.

É uma vida comunal pós-hippie que ecoa os anseios e utopias da década anterior. Dorothea, como boa veterana que é dos anos 1960, tem o espírito livre, mas com responsabilidades. Não se sente preparada para criar o filho sozinha, por isso conta com a ajuda da dupla de inquilinos e da adolescente Julie (Elle Fanning), amiga de Jamie, que às vezes passa a noite na cama dele, sem que haja qualquer insinuação sexual ou romântica: eles apenas ficam conversando, trocam confidências ou dormem abraçados.

Em “Toda Forma de Amor”, que rendeu um Oscar a Christopher Plummer no papel do septuagenário que se assume gay e cujo filho tem de lidar com isso, o diretor Mike Mills inspirou-se na vida de seu pai. Já em “Mulheres do século 20”, a versão ficcionalizada é da mãe. Se naquele filme, o protagonista já era adulto e tinha uma visão mais precisa sobre a situação, aqui, sendo um adolescente, há também uma neblina encobrindo sua capacidade de perceber a grandeza de Dorothea. Dessa forma, trata-se de um filme de descoberta e tentativa de dimensionar essa mulher.

O que não é nada fácil, pois ela é uma daquelas personagens “maiores do que a vida”, que o filme tenta apreender de forma bonita. Ajuda muito o retrato também das outras duas mulheres do século 20 que cercam a adolescência de Jamie. Ecoando temas como a revolução sexual dos anos de 1960, o filme transforma o pessoal em político, reverberando o slogan feminista de meados dos anos de 1970. A trajetória de Dorothea e dos outros personagens são uma compreensão dos fracassos e avanços das lutas da década anterior. Assim, situar o longa em 1979 ganha um caráter representativo. É, possivelmente, o último ano de esperança. A década que se avizinha, com a ascensão do neoliberalismo, enfraqueceu – quando não derrotou por completo – as conquistas sociais, políticas, culturais de não muito tempo atrás.

Nesse sentido, “Mulheres do Século 20” é sobre o último suspiro da utopia, representada na comunidade informal que nasce na casa de Dorothea. Jamie é o ponto de fuga da narrativa, mas o que mais importa são as linhas que ele espalha – sendo sua mãe a mais forte delas. A beleza está exatamente em assumir que é impossível capturar essa mulher na sua integralidade. O filme se contenta em retratar partes do caráter marcante da personagem.

Se o resultado é bem-sucedido – e é muito –, boa parte se deve à interpretação de Annette Bening (indicada ao Globo de Ouro e esnobada no Oscar), tão sorridente e cheia de dúvidas. Ela cria uma Dorothea certa de suas inseguranças e aberta às mudanças. Afinal, ela viu o mundo dar um giro de 360 graus poucos anos atrás, cercada de figuras marcantes, tão bem-realizadas como a protagonista.

Sem uma narrativa ao modo clássico, Mills (que também assina o roteiro indicado ao Oscar) constrói um filme estruturado em fragmentos de lembranças, permitindo-lhe avançar e recuar no tempo sem qualquer problema, dando o destino de suas personagens como se elas fossem dotadas de uma consciência daquilo que ainda está por vir. Mais do que o retrato de uma geração, o filme reflete um período.

(Alysson Oliveira, do Cineweb)

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