Estreia: novo filme de Pablo Larraín é exibido grátis em streaming

Carlos Helí de Almeida

“Você conhece o Spotify?”, pergunta Pablo Larraín, referindo-se ao popular serviço de streaming de músicas. “Vai lá e checa que tipo de canção está no topo da lista das mais ouvidas nos países da América Latina (de língua espanhola). Só dá reggaeton”, avisa o diretor chileno, justificando o motivo pelo qual ele o compositor Nicolas Jaar elegeram o energético gênero musical como trilha sonora de “Ema”, seu novo longa-metragem, que ganhou première mundial na competição do Festival de Veneza do ano passado.

O filme, que a plataforma de streaming Mubi disponibiliza somente hoje (1/5), gratuitamente, em mais de 50 países — incluindo o Brasil —, se desenvolve em torno de um grupo de dança contemporânea da cidade portuária de Valparaíso. No centro da trama está a jovem dançarina do título, interpretada por Mariana Di Girolamo, que vê o casamento com coreógrafo da companhia desmoronar depois que é obrigada a devolver a criança que eles adotaram para o orfanato. O marido, 12 anos mais velho que ela, é vivido por Gael García Bernal.

A partir do drama da protagonista, obcecada pelo desejo de ser mãe a qualquer custo, mas sem perder sua liberdade, Larraín tenta pintar um retrato da atual juventude chilena. Em suas pesquisas, o autor de “O clube” (2014) e “Jackie” (2016) e os roteiristas Guillermo Calderón e Alejandro Moreno descobriram que os jovens do Chile hoje são menos pragmáticos e consumistas. Tampouco se importam com padrões sexuais e modelos convencionais de família.

— É uma geração em transição, que está se autodescobrindo sem qualquer pressão ou traço de ansiedade — explica o realizador de 43 anos. — Na minha época, as cobranças chegavam já na adolescência: O que você vai estudar? Que profissão te dará uma vida confortável? Os jovens de hoje são mais livres, conseguem viver com pouco e se interessam genuinamente por outras coisas, como o meio ambiente. A dança e música, no caso o reggaeton, ajudam a expressar melhor os sentimentos desses jovens.

Como síntese dessa geração, Ema é uma heroína cheia de defeitos, que adquire características quase mitológicas: de dia ela é a líder carismática e criativa, que seduz homens e mulheres para conseguir o que deseja; à noite ela sai pela cidade com um lança-chamas, incendiando carros e equipamentos de playgrounds. Mais do que um elemento de grande beleza visual, o fogo ganha dimensões metafóricas em “Ema”: não por acaso, a coreografia que abre o filme tem como pano de fundo um superclose da superfície solar, que enche a tela.

— A personagem representa a força da natureza. Ema vai deixando sua marca na cidade, onde quer que vá. Ela é como o fogo, que queima e transforma tudo com o seu toque — filosofa Larraín, que transforma os impulsos incendiários da protagonista em belos e intrigantes espetáculos. — Ela é como o Sol que mostramos no início do filme, em imagem impressionante cedida pela Nasa, em torno do qual orbitam todos os planetas do sistema. Ema é a mãe, a filha, a irmã, a esposa, a amiga, a amante, a dançarina.

As características arquitetônicas e geográficas de Valparaíso foram determinantes na escolha da cidade como cenário de “Ema”. Seu porto foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2003.

— Valparaíso é um personagem. É uma cidade construída sobre colinas, uma espécie de Lisboa na América Latina. Seu porto é o principal ponto de entrada marítimo do Chile, todo navio que vem dos Estados Unidos ou da Europa têm que parar lá. Por causa disso, a cidade recebeu a múltipla influência de imigrantes — diz o diretor. — E o filme incorpora essa miscelânea de referências, até em termos de gênero: é um melodrama com elementos de suspense, que flerta com o musical. É um conto de fadas punk rock!

Cronista do trágico passado político de seu país — é autor de “Tony Manero” (2008), “Post mortem” (2010) e “Não” (2012), trilogia sobre as diferentes fases da ditadura militar chilena — Larraín agora mira na geração que carrega o possível futuro do Chile:

— Algumas pessoas dizem que “Ema” é diferente de meus filmes anteriores, pois não aborda temas políticos diretamente. Mas ele fala de uma nova geração, sobre adoção problemática, outros conceitos de família, mostra, enfim, como a sociedade está mudando. Então, ele é um filme extremamente político, como é toda história que descreve um drama humano dentro de um determinado contexto histórico.