ESTREIA–“O Poderoso Chefinho” é uma fantasia sobre a chegada de um novo irmão

(Reuters) - SÃO PAULO (Reuters) – “O Poderoso Chefinho” é um filme da Dreamworks aspirando ser Pixar, e até consegue em alguns momentos, mas não o tempo todo. O ponto de partida criativo não se sustenta ao longo dos quase 100 minutos da animação dirigida por Tom McGrath (“Madagascar 3: Os Procurados”), mas resulta em algumas boas tiradas.

Tim é filho único e desfruta dessa condição sem qualquer pudor. Tem a atenção e companhia sem limites dos pais – marqueteiros numa empresa que “produz” cachorrinhos. Isso não quer dizer, no entanto, que seja tão mimado. Os primeiros minutos do filme mostram essa vida de regalias e diversão, que é interrompida quando um táxi amarelo para na porta de sua casa e dele desce um bebê, que anda e fala, vestido num terno de executivo.

Ele é o Poderoso Chefinho, produzido na “fábrica de bebês” e mandado para a Terra com uma missão. O longa, escrito por Michael McCullers a partir de um livro de Marla Frazee, cria um conceito: uma fábrica onde as crianças são feitas e selecionadas – alguns vão para as famílias na Terra, outros para a parte administrativa da companhia. O Bebê, pois assim é chamado durante o filme, não é do tipo familiar. Mas, como ele quer ser promovido, aceita ser mandado numa missão.

Em sua nova casa, o Bebê é tirânico. Um verdadeiro executivo cruel, maltratando o irmão mais velho, fazendo com que os pais sempre vejam o garoto como o vilão e o caçula como um anjinho. Tim, por sua vez, perde suas regalias e os pais só dão atenção para o novo membro da família. Resolvido a expor o pequenino, o protagonista arma um plano para invadir uma reunião de bebês, mas tudo termina em confusão e castigo.

Há algo de “Olha quem está falando”, uma série de filmes de sucesso dos anos de 1990, que se perde aqui. Fosse apenas uma premissa como essa, envolvendo um bebê mandão e falador, talvez “O Poderoso Chefinho” fosse mais bem-resolvido. Mas toda a trama corporativa, envolvendo o “consumo” de bebês e cachorrinhos é um tanto bizarra, transformando crianças em mercadorias adoráveis e executivos detestáveis.

O bebê, que só dá ordens, rouba a atenção e o carinho dos pais. Entre outras coisas, é, claramente, uma fantasia exagerada diante da impotência do irmão mais velho quando perde seu reinado absoluto, e resulta em momentos divertidos e inteligentes diante do desespero do menino em tentar recobrar aquilo que acha ser seu. Enquanto está colado na realidade (mesmo que fantasiosa) infantil, a animação encontra seus melhores momentos – a abertura com a “produção de bebês”, ou toda a dinâmica da “fábrica”. Mas quando resolve tornar-se uma comédia com correrias, perseguições e afins, o longa se perde num mar genérico.

A certa altura, o Bebê revela que a maior concorrência enfrentada pelos bebês são os cachorros fofinhos que são produzidos em larga escala. E uma empresa especializada nisso, onde seus pais trabalham, está prestes a lançar um novo modelo ainda mais fofinho. É preciso impedi-los.

O visual colorido e retrô se destaca, estabelecendo o tom fantasioso do ponto de vista de Tim em relação ao irmão caçula. “O Poderoso Chefinho” é, emocionalmente, ressonante sobre as questões das dinâmicas familiares – há uma visão bem-sacada disso, especialmente se levarmos em conta que tudo é filtrado pela subjetividade do protagonista de 7 anos -, e poderia muito bem ficar apenas nisso.

(Alysson Oliveira, do Cineweb)

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