ESTREIA–“Una” é uma espécie de “Lolita” para a época da pós-verdade

Atriz Rooney Mara posa para fotos em Los Angeles, 29/03/ 2017. REUTERS/Mario Anzuoni

SÃO PAULO (Reuters) - Publicado em meados dos anos de 1950, “Lolita”, de Vladimir Nabokov, causou controvérsia – na verdade, causa até hoje – ao contar a história de um abuso sexual disfarçado de história de amor. O que muitos leitores da época – talvez até no presente – não perceberam é que o romance explora o quão vil e doente era seu protagonista, Hubert H. Hubert.

Ao narrar pelo ponto de vista deste personagem, o autor cria uma voz ridícula, mas sedutora, a ponto de quase nos convencer de sua paixão pela sua enteada. Quase. Nabokov era um mestre. A escolha das palavras, as digressões apaixonadas, tudo servia ao propósito de mostrar como eram patológicos esse sujeito e seu “amor”.

O filme “Una”, adaptado de uma peça premiada de David Harrower, que também assina o roteiro, pode ser chamado de “Lolita da era da pós-verdade”. O principal problema da obra já se revela no plano formal, quando substitui o ponto de vista do homem-abusador pelo da vítima, de forma a torná-la, praticamente, senão culpada, no mínimo, digamos, quase contente com o abuso que sofreu na adolescência.

Rooney Mara é Una, uma jovem misteriosa, vivendo num subúrbio qualquer da Inglaterra com sua mãe. Já na primeira cena a vemos numa balada, onde acaba transando com um desconhecido no banheiro. O filme, logo de cara, mostra o pouco apreço que ela tem pelo sexo. Para ela, é mais um instinto, uma necessidade fisiológica do que qualquer outra coisa. Quando a narrativa retrocede, vemos a personagem-título ainda aos 13 anos (Ruby Stokes) dizendo seriamente para uma câmera: “Ray, por que me abandonou?”. Trata-se do julgamento do homem que a molestou (Ben Mendelsohn) e, sem que ela tenha acesso à sala onde a audiência acontece – preservada num outro recinto longe do olhar do criminoso –, desesperada, ela confessa o seu amor.

Esse sentimento durará por mais de uma década, quando, agora adulta, independente, mas emocionalmente instável, ela procura esse homem no seu trabalho não para o confrontar, mas para dizer que ainda o ama. Ao menos, é assim que a personagem se sai nas mãos de Rooney. A obsessão dela por Ray é tão forte e sufocante que o público quase sente pena dele. E esse não parece ser o melhor ângulo para abordar um caso de pedofilia.

Os flashbacks mostram de maneira crua como era doentia essa relação – ele a levava para uma moita no parque para a apalpar, enquanto ela o masturbava, até terminar, num hotel, depois de uma fuga, às vias de fato. Os floreios visuais do diretor australiano Benedict Andrews também pouco ajudam a filtrar o que há de tóxico nesse filme, que ultrapassa os limites sem muita responsabilidade.

Stanley Kubrick adaptou o romance de Nabokov em 1962 – Adrian Line também o fez em 1999, mas isso é melhor esquecer – e o cartaz do filme dizia: “Como ousaram fazer um filme de Lolita?” Pois é, ousaram mais de meio século atrás, e Andrews e seu filme não avançam agora numa discussão na questão do abuso – apenas perpetuam um clichê fetichizado da adolescente que se apaixona pelo homem que podia ser seu pai.

O drama francês “Elle”, do ano passado, levantou altas discussões sobre a representação do estupro e o olhar masculino. O filme de Paul Verhoeven era bastante bom e essa problematização não foi nada gratuita. “Una” não tem esse potencial, pois cozinha em fogo brando seu assunto explosivo e toma decisões pouco acertadas quanto à sua condução.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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