Estresse do mercado por fala de Lula encerra lua de mel com a equipe de transição

Brazil's former President (2003-2010) and presidential candidate for the leftist Workers Party (PT), Luiz Inacio Lula da Silva (C), speaks next to his vice presidential candidate Geraldo Alckmin (R) and former presidential candidate Simone Tebet (MDB), during a press conference after a meeting in Sao Paulo, Brazil, on October 7, 2022. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Lula entre Simone Tebet e Geraldo Alckmin, integrantes da equipe de transição. Foto: Nelson Almeida/AFP via Getty Images)

O tal mercado mostrou os dentes na quinta-feira (10).

Por conta das (más) notícias sobre inflação, os juros nos EUA, declarações e sinais de vacilo na equipe de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dólar fechou em alta e a Bolsa, em queda, numa reversão de expectativa após uma pequena lua-de-mel entre agentes políticos e econômicos.

No começo da semana, a aposta era que os humores do mercado estariam em dia com as escolhas dos nomes para comandar a área econômica na transição, entre eles Pérsio Arida e André Lara Resende, idealizadores do Plano Real.

Eleito vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB) ficou com a missão de comandar os trabalhos e servir como algodão entre os cristais da sala, fazendo pontes e apagando aqui e ali os princípios de incêndio que inevitavelmente surgirão até janeiro.

E a presença de Simone Tebet (MDB) no grupo indicava que sob Lula a terceira via, tão sonhada por parte da mídia e do mercado, conseguiria atravessar a rampa em direção ao Planalto como parte do ministério.

Faltou combinar com os donos do dinheiro.

Lula, em seu primeiro pronunciamento ao voltar das mini-férias, falou como presidente eleito o que já havia falado como candidato a presidente: que dinheiro para a área social não pode ser considerado gasto, mas investimento.

Pra quê?

Por trás da frase estava a elaboração de uma projeto de emenda constitucional que permitiria ao futuro governo tirar do teto de gastos os investimentos em programas de distribuição de renda, como o Auxílio Brasil.

O mercado viu nisso uma brecha para outros gatos fugirem pelo teto e reagiu, mostrando a indisposição em colocar dinheiro em um país que, avaliam, não tem compromisso com a responsabilidade fiscal (leia-se pagar seus credores).

Quem já governou o país deveria saber que faz parte do jogo a lei da ação e da reação. Essa reação nas Bolsas muitas vezes vem em forma de histeria. E alimenta a histeria sobre a histeria, num ciclo que não tem como acabar bem.

É sabido que os agentes financeiros do país aguardam com atenção a confirmação do nome do próximo ministro da Fazenda. Esse anúncio é, ou deveria fazer parte, de um governo que vendeu a ideia de estabilidade e previsibilidade como contraponto ao modo “conflito permanente” do governo Bolsonaro.

Bolsonaro sabia disso ao anunciar que Paulo Guedes seguiria no seu time ainda na campanha.

Lula não quis mostrar as cartas naquele momento.

Mas, eleito há mais de dez dias, ninguém sabe ainda quem será o escolhido. É muito tempo para quem espera já por dias menos nebulosos e definir para onde levar suas carteiras de investimento.

O petista e sua equipe têm direito de avaliar com tempo e calma as cartas na mesa, mas não podem reclamar dos ruídos provocados pela indefinição.

Um dos nomes cotados, Henrique Meirelles, já até confidencializou a investidores que anda desanimado com os primeiros sinais de Brasília. Para ele, Lula “dilmou” ao flertar com a ampliação de gastos num momento de ajuste de contas.

Lula ouviu sermão até de Armínio Fraga, ex-ministro da Fazenda que o apoiou na campanha e que foi a público dizer que responsabilidade fiscal não deveria antagonizar com responsabilidade social, pelo contrário: com as contas em dia, vem mais investimento para cá, mais dinheiro circula, etc, etc.

Não é verdade, como muitos correram para dizer nas redes, que o mercado já demonstra com Lula uma má vontade que não existia sob Bolsonaro.

Bolsonaro e equipe cansaram de lidar com estresse de mercado toda vez que anunciavam mudanças no ordenamento fiscal, como quando decidiu rolar o pagamento de precatórios para bancar a farra das benesses sociais distribuídas às vésperas da eleição para ganhar o jogo.

Ou quando Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça e no rastro da decisão o dólar quase bateu R$ 6.

É assim que a banda toca, goste-se ou não.

Os agentes políticos têm todo o direito de dizer que os agentes econômicos não podem pautar as políticas sociais. Mas não podem se queixar da bronca com a falta de previsibilidade, principalmente quando a estão na memória recente dos analistas financeiros as decisões econômicas tomadas ao longo dos governos Dilma Rousseff, de quem parte do PIB não pode ouvir o nome.

Pois seu ex-ministro Guido Mantega acaba de ser anunciado como integrante da equipe de transição, num sinal de que pode ter o protagonismo que o mercado não queria que ele tivesse no futuro governo.

Lula deveria seguir o conselho de Simone Tebet e anunciar logo seu ministro da Fazenda. Absorvido o choque, poderá escolher com calma os demais integrantes da sua equipe, como bem quiser.