Estresse eleitoral afeta 68% dos americanos, mostra pesquisa

CLAUDIA COLLUCCI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na véspera das eleições presidenciais nos EUA, a aposentada Amy Marash, 69, moradora de Washington, oscila entre momentos de ansiedade e irritação e outros de esperança de mudança nos rumos. Além do fato de estar afastada dos amigos devido à pandemia de Covid-19, ela atribui o estresse ao período eleitoral conturbado, que ocorre em meio a uma guerra política partidária, protestos raciais e teorias conspiratórias na TV e na internet. "O manejo inadequado da pandemia, a ameaça aos nossos direitos, a normalização de um presidente insano, tudo isso também tem intensificado a minha ansiedade, tem feito muito mal a mim." Os sentimentos expostos por Amy vão ao encontro do que os especialistas americanos em saúde mental já definem como "ansiedade eleitoral" ou "transtorno do estresse eleitoral". Quase sete em cada dez americanos (68%) relatam que a eleição tem sido fonte significativa de estresse em suas rotinas. Esse índice é superior ao registrado nas eleições de 2016, quando 52% dos entrevistados mencionaram o mesmo sentimento. Os dados de ambas as pesquisas são da American Psychological Association. A proporção de adultos negros que relatam o pleito como fonte de estresse saltou de 46% em 2016 para 71% em 2020. A tensão independe da preferência partidária, mas os democratas, assim como Amy, estão mais ansiosos: 76% contra 67% dos republicanos e 64% dos independentes. O transtorno de estresse eleitoral não é um diagnóstico científico, não está na "bíblia" dos psiquiatras, mas o conceito é real, segundo Robert Bright, psiquiatra da Mayo Clinic, em Phoenix, no Arizona. "É uma experiência de ansiedade avassaladora que pode se manifestar de várias maneiras", explica. "Há muitos distúrbios do sono acontecendo agora. A pessoa não consegue dormir ou tem pesadelos com a eleição", diz Bright. Outros sintomas são dores de cabeça e nos ombros e distúrbios gastrointestinais. Segundo o médico, as pessoas estão com medo e hipervigilantes, pesquisando notícias e acessando muito as redes sociais. Propagandas políticas na TV enviam mensagens alarmantes, de que o voto no adversário provocará consequências catastróficas, o que cria sensação constante de ansiedade e medo. "Temos que descobrir como podemos controlar o que é controlável. O que está sob o nosso controle? O que podemos fazer? Uma coisa que podemos fazer nesta eleição é simplesmente votar", afirma ele. "Mas se os sentimentos de desesperança ou desamparo evoluem para sentimentos reais de desespero ou mesmo pensamentos suicidas certamente é hora de procurar ajuda profissional." E procurar ajuda pode ser de um terapeuta ou de um psiquiatra para tratar o que virou depressão clínica. Estar em contato com amigos e falar sobre os sentimentos também podem ser de grande valia. O estresse eleitoral se sobrepõe a outra fonte de dano à saúde mental que também preocupa muito as autoridades de saúde: a Covid-19. Um estudo do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) e do Censo americano, publicado em junho, revelou que as taxas de ansiedade e depressão entre os americanos triplicaram entre março e maio em relação ao mesmo período de 2019: 34% contra 11%. As mulheres, os jovens, os menos escolarizados e os de minorias étnicas são os grupos que relatam mais sofrimento. Na faixa etária entre 18 e 29 anos, 46% mencionam prejuízo à saúde mental. Entre as pessoas com até o segundo grau, 45% relataram sintomas de depressão ou ansiedade --contra 30% das que têm uma graduação ou mais. Entre as mulheres, a taxa foi de 41%, contra 31% dos homens. Entre os negros, de 40%, contra 31% dos brancos. Segundo o estudo publicado pelo Geneva Emotion Research Group, da Universidade de Genebra (Suíça), as emoções em relação à resposta do governo federal à Covid-19 estão fortemente relacionadas ao envolvimento positivo ou negativo dos eleitores dos EUA na eleição de Donald Trump ou Joe Biden. As três emoções mais frequentemente relatadas pelos participantes são decepção, raiva e repulsa. "Decepção é tipicamente sobre promessas e expectativas fracassadas, raiva é sobre a responsabilidade de alguém sobre circunstâncias prejudiciais, e repulsa é sobre decisões moralmente questionáveis", disse o pesquisador Marcello Mortillaro, da NayaDaya Inc, empresa que participou do estudo. Entre eleitores sem preferência por partidos políticos, 56% têm sentimentos negativos sobre as ações de Trump no enfrentamento do coronavírus. Mesmo entre eleitores republicanos, 1 em cada 3 responde com emoção negativa sobre a condução da crise sanitária. As reações de democratas são 86% negativas. Marla Smith, da zona rural do Arizona, votou em Trump nas últimas eleições, mas se diz frustrada e com raiva. Agora, a ex-republicana se declara independente, mas comenta que está "inclinando-se cada vez mais para os democratas". "Trump demorou muito para tomar precauções e reabriu muito cedo, e é por isso que estamos voltando a ter esses picos [de coronavírus]", diz. Para o psiquiatra Steven Moffic, conselheiro editorial da revista Psychiatric Times, esse conjunto de dados sugere que o país enfrenta hoje uma epidemia de ansiedade, que seria gerada por um estado prolongado de apreensão causado pela pandemia, pelas eleições conturbadas e pela incerteza do futuro. Esse quadro não deve acabar nas eleições. Os psiquiatras já antecipam um novo transtorno pela frente: a síndrome ou distúrbio de estresse pós-eleitoral. O termo foi cunhado quando Barack Obama foi eleito, e os psiquiatras passaram a observar efeitos emocionais gerados por ansiedade. Para Lauren Grawert, chefe de psiquiatria para Virgínia do Norte dentro da organização de saúde Kaiser Permanente, não importa se o resultado foi o desejado ou não. "Qualquer um deles pode causar ansiedade, porque pode representar uma grande mudança." Na opinião dela, é importante que as pessoas reconheçam esses conflitos para que possam adotar estratégias de enfrentamento. "Sejam exercícios, alguma distração, o registro das emoções em um diário, uma conversa com alguém. Tudo isso pode ajudar a gerenciar esses sentimentos difíceis na temporada pós-eleitoral", disse. Esse estresse todo tem história. Moffic publicou recentemente artigo em que faz uma revisão de algumas eleições conturbadas. O psiquiatra faz um paralelo da eleição da próxima terça com a de 1920. Foi ao fim de outra pandemia devastadora, a da gripe espanhola, que começou em 1918. O candidato republicano à época, Warren Harding, concorreu e venceu com plataforma de "retorno à normalidade". A mensagem parece ter conseguido reduzir os temores do momento. "Ele foi visto de forma positiva enquanto presidente, mas morreu cerca de dois anos depois, durante o mandato."