Estudante é queimada viva após denunciar assédio sexual no Paquistão

Milhares de pessoas compareceram ao seu funeral e diversos protestos se espalharam pelo país. (Foto: Sazzad Hossain/AFP/Getty Images)

Uma jovem de 19 anos teve a corajosa atitude de denunciar o diretor da escola onde estudava, após ter sido sexualmente assediada por ele. No entanto, foi a própria Nusrat Jahan Rafi quem sofreu as consequências de sua atitude: a estudante foi encharcada com querosene e queimada viva dentro da própria escola. O caso aconteceu em Bangladesh, no último dia 6 de abril.

As informações são do portal UOL.

Nusrat denunciou o diretor da escola no dia 27 de março, após ter sido chamada para o seu escritório e sofrido o assédio. Segundo a estudante, o homem a teria tocado de forma inapropriada por diversas vezes, até que ela conseguiu se retirar do local antes de a situação se agravar.

A adolescente, diferentemente do que comumente acontece com meninas e mulheres vítimas de abusos sexuais - que preferem se manter em silêncio para não sofrerem retaliações -, decidiu não só expor o ocorrido, como ir até a polícia, acompanhada de sua família, para prestar queixa contra o abusador.

Entretanto, ao invés de garantirem a proteção e a segurança da jovem, os policiais registraram seu depoimento em vídeo e ainda afirmaram que sua reclamação não era “grande coisa”. As imagens foram vazadas para a mídia local e é visível o desconforto da estudante, que tenta a todo momento cobrir seu rosto com as mãos.

Após a denúncia, o diretor da escola foi preso. Porém, ao invés de as coisas melhorarem para a jovem, tudo foi de mal a pior. Um grupo de pessoas organizado por dois homens foi às ruas exigir a soltura do diretor. No protesto, o grupo culpabilizava Nusrat de tal maneira que sua família passou a se preocupar com a sua segurança. Alguns relatos constam de que alguns políticos locais também estariam participando do protesto.

Onze dias após o ocorrido, Nusrat precisou ir à escola onde faria as provas finais do semestre, no dia 6 de abril. Foi nesse dia que a jovem, após ter sido vítima de abuso sexual, foi também vítima da brutalidade dos seus colegas da escola islâmica.

O crime ocorreu quando uma estudante levou Nusrat para o último andar do colégio, afirmando que uma de suas amigas havia apanhado. Ao chegar lá, a jovem foi cercada por quatro ou cinco pessoas que usavam burcas e a pressionaram a retirar as acusações contra o diretor.

Quando a adolescente se negou, os estudantes jogaram querosene em seu corpo e atearam fogo. Todas essas informações foram dadas pela própria Nusrat, em depoimento, antes de morrer.

Banaj Kumar Majumder, chefe da Central de Investigações da Polícia, afirma que os assassinos pretendiam fazer com que o homicídio parecesse suicídio. Porém, o plano não deu certo pois Nusrat conseguiu fugir do local, ser resgatada, e gravar um depoimento em vídeo de dentro da ambulância que a levava para o hospital local.

“O professor me tocou”, disse ela. “Eu vou lutar contra esse crime até meu último suspiro”. A jovem ainda conseguiu identificar alguns dos criminosos, antes de morrer, no dia 10 de abril, após ter 80% de seu corpo queimado e não resistir aos ferimentos.

COMOÇÃO NACIONAL

Desde o assassinato de Nusrat, 15 pessoas foram presas e o diretor continua detido. O policial responsável por filmar a adolescente durante seu primeiro depoimento, na delegacia, foi removido do cargo e transferido para outro departamento. A primeira-ministra do país, Sheikh Hasina, se encontrou com a família de Nusrat e prometeu levar todos os envolvidos no crime à Justiça. “Nenhum dos culpados vai escapar de processos”, afirmou.

Apesar do trágico fim que teve a história de Nusrat, seu caso tomou grande proporção e trouxe para os holofotes o debate sobre crimes sexuais e de ódio contra a mulher no continente conservador. Milhares de pessoas compareceram ao seu funeral e diversos protestos se espalharam pelo país.

Nas redes sociais, usuários comentaram a notícia veiculada pela página da BBC News Bengali. “Muitas garotas não protestam por medo de incidentes do tipo. Burcas não param os estupradores”, disse um internauta. “Eu quis uma filha minha vida toda, mas agora tenho medo. Dar à luz uma garota nesse país significa uma vida de medo e preocupação”, disse outra.

940 ESTUPROS

Segundo o grupo de defesa dos direitos das mulheres de Bangladesh Mahila Parishad, 940 casos de estupro foram registrados no país em 2018. Pesquisadores, porém, afirmam que o número é provavelmente muito maior. “Quando uma mulher tenta obter justiça por abuso sexual, ela tem de enfrentar muito assédio novamente. O caso se arrasta por anos, há humilhação pela sociedade e falta de disposição da polícia de investigar as denúncias”, diz Salma Ali, advogada de direitos humanos e ex-diretora da Associação de Advogadas Mulheres. “Isso leva a vítima a desistir de procurar justiça. No fim, os criminosos não são punidos e cometem o mesmo crime de novo. E outros não têm medo de fazer o mesmo por causa desses exemplos”.

Em 2009, a Suprema Corte do país determinou a criação de centros em todas as instituições de ensino como local de segurança para que as estudantes pudessem levar suas reclamações sobre assédio. Poucas escolas, porém, implementaram a iniciativa.

Agora, ativistas estão exigindo que a ordem estabelecida seja cumprida. “Esse incidente nos balançou, mas como já vimos no passado, esse tipo de episódio é esquecido com o tempo. Eu não acho que haverá uma grande mudança depois disso. Precisamos ver se a Justiça será feita”, declarou a professora Kaberi Gayen, da Universidade de Dhaka. “É preciso mudança, tanto cultural quanto na implementação da lei. Conscientização sobre assédio sexual poderia ser feita desde a infância nas escolas. (As crianças) precisam aprender o que é certo e errado quando se fala de assédio sexual”.