Estudante negro que tirou nota mil na redação do Enem quer inspirar outros jovens

Alma Preta
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O caso do estudante pernambucano é uma exceção em meio às desigualdades que atravessam a educação no Brasil. (Foto: Acervo Pessoal)
  • Estudante é de Pernambuco e sonha em seguir carreira de médico

  • 3.44 milhões dos estudantes que prestaram o Enem 2020 são negros, 56 mil a mais do que em 2019

  • Estatísticas demonstram como os estudantes negros são afetados pelas desigualdades na educação

Texto: Caroline Nunes Edição: Nataly Simões

O estudante Savicevic Ortega, de 20 anos, atingiu a nota máxima de mil pontos na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o que somado às outras disciplinas resultou em 740 pontos de média. Com essa nota, o pernambucano, que já estuda Direito, se inscreveu para o curso de Medicina.

Para ele, o resultado deve servir de inspiração para outros candidatos negros, principalmente pela questão da representatividade racial no ambiente universitário.

“Um jovem negro de uma comunidade periférica também pode conseguir esse resultado e ocupar esses espaços, pois as dificuldades encontradas por esses jovens normalmente estão atreladas ao poderio econômico, não à inteligência ou esforço. É importante quebrar o preconceito de que todo preto pobre é bandido ou está envolvido com drogas”, afirma.

Savicevic é um dos 28 participantes de 2020 que tiraram nota máxima na redação. Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o número é menor em relação a 2019, quando 53 estudantes alcançaram o maior resultado; e em comparação a 2018, que teve 55 com esta pontuação.

Segundo nota do instituto, uma das hipóteses para a diminuição de alunos com alto desempenho é que a edição do ano passado registrou a maior abstenção desde 2009: 70% na modalidade digital e 50% na impressa, por causa da pandemia.

Desigualdade racial na educação

O Enem 2020 foi marcado pelo aumento da participação de candidatos negros. Dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que 3.44 milhões dos estudantes que prestaram o exame são negros, 56 mil a mais do que em 2019, e 3.41 milhões das candidatas são mulheres, 56 mil a mais do que na edição anterior. Ao todo, 5.69 milhões de alunos fizeram o Enem impresso, enquanto 96 mil optaram pela versão digital do exame.

Os números expressivos, no entanto, não expressam a realidade dos negros brasileiros, que ainda enfrentam barreiras para acessar o ensino superior. O professor e educador popular da UneAfro Brasil, Adriano Sousa, explica que existem diversos entraves para o estudante negro e periférico entrar e se manter nos espaços acadêmicos.

“Ter que adentrar precocemente no mercado de trabalho e não conseguir conciliar trabalho com estudo acaba ocasionando a desistência de muitos alunos, que encontram outras alternativas de vida para a sobrevivência”, afirma Adriano, que também é mestrando em História Social pela Universidade São Paulo (USP).

Plataformas digitais, videoaulas no YouTube, e exercícios que levam em consideração as afinidades dos alunos são algumas ferramentas que o professor destaca como importantes para que os estudantes negros continuem estudando, bem como aparelhos eletrônicos e acesso à internet.

Por conta da pandemia, o impacto negativo que recaiu no sistema de ensino nacional afetou mais os estudantes negros e periféricos no Brasil. Essa dificuldade se deu principalmente pela falta de acesso à internet e obtenção de eletrônicos, como computadores, notebooks e celulares, úteis para o ensino remoto, de acordo com o boletim “As desigualdades educacionais e o covid-19”, do Instituto Afro Cebrap. O estudo aponta que o sistema brasileiro de educação é incapaz de fornecer ensino de qualidade à distância.

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Dados sobre a educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios durante a Pandemia (Pnad-Covid) apontam que os maiores prejudicados no Enem foram os estudantes de baixa renda e, quanto à desigualdade racial, alunos negros foram os que menos receberam atividades educacionais durante o período no Ensino Fundamental e Médio, ficando com 77% das atividades enquanto os brancos somaram 89% das lições exigidas pelo ensino remoto.

Para o educador da UneAfro Brasil, as cotas raciais é essencial para compensar de certa forma as carências do sistema educacional, visando o aumento no número de estudantes negros nas universidades públicas. Para ele, a garantia de vagas é uma ferramenta de transformação social, pois a qualidade do Ensino Médio público tem servido apenas para “preparar o estudante negro para o serviço terceirizado”.

O professor ressalta que é importante valorizar os saberes que o estudante negro traz para a sala de aula e lidar com as dores psicológicas que esses alunos levam para o ambiente universitário, para permitir que essas pessoas sonhem e tenham projetos de vida.

“Agora esses indivíduos estão entrando nas universidades para se formarem nas mais diversas áreas do conhecimento. Esses mesmos estudantes negros vão escrever livros, ou vão para o serviço público, levar informações sobre a cultura negra e periférica para outros espaços, que antes não eram atingidos”, considera.

O que fazer com a nota do Enem?

Savicevic postou nas redes sociais seu processo de inscrição para o Sisu (Sistema de Seleção Unificada), programa oferecido pelo MEC com vagas em universidades públicas.

“Me inscrevi para o curso de medicina na Universidade Federal do Pernambuco e para a UPE [Universidade de Pernambuco]. Caso eu passe, vou trancar o curso de Direito e seguir o meu sonho”, adianta.

O processo seletivo do Sisu já está aberto, é totalmente automatizado e utiliza as notas do Enem para classificar os candidatos. A participação é gratuita e a seleção acontece duas vezes por ano.

É possível também utilizar a nota do Enem para universidades particulares, através do ProUni (Programa Universidade para Todos), que garante bolsa integral ou parcial nos cursos. Por conta do adiamento do exame, em função da pandemia, o processo seletivo se inicia no segundo semestre de 2021.

Existe também o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que no período em que estiver matriculado no curso, o estudante paga uma parcela trimestral referente aos juros do financiamento. Esse esquema continua também durante o prazo de carência (que dura alguns meses após a formatura). Passado o prazo de carência, a dívida é parcelada e pode ser estendida por vários anos.