Estudante negro-surdo é escolhido para apresentar pesquisa em Moçambique

Wesley tem 24 anos e faz faculdade na UFSCar. Foto: Arquivo Pessoal

O estudante Wesley Nascimento, de 24 anos, é negro, surdo e faz faculdade na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). Ele estuda Tradução e Interpretação em Libras e Português em tempo integral e teve um trabalho selecionado para se apresentar na Universidade Católica de Moçambique.

Sem recursos para ir até o país, Wesley lançou uma campanha na internet para custear sua viagem. Caso consiga ir até Moçambique nos dias 20 e 21 de novembro, o jovem poderá apresentar seu trabalho “A construção da identidade política do estudante negro-surdo na universidade pública”.

Em entrevista ao Yahoo, Wesley afirmou que a ideia do projeto é causar uma reflexão sobre ser negro e surdo em uma universidade pública, “já que estes corpos são marginalizados”. Para ele, poder apresentar seu trabalho em outro país será uma grande conquista para toda a comunidade surda.

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“Eu queria agradecer pelo apoio que venho recebendo de familiares, amigos e da minha orientadora ao longo desta campanha. Eu também queria dedicar este trabalho à comunidade surda e, principalmente, aos negros-surdos. Gostaria de dizer que essa conquista não é só minha, é de todos nós”, afirmou.

Leia a entrevista completa:

Me conte um pouco sobre a sua trajetória acadêmica.

Wesley Nascimento: Sempre estudei em escolas públicas e sempre quis estudar direito. Porém, quando passei, acabei sentindo que precisava estudar algo relacionado à comunidade surda, no sentido de ter uma formação mais pessoal do que profissional. Hoje em dia, não é só uma realização pessoal, mas também profissional.

Como foi chegar na universidade? Qual sua rotina e histórico na universidade?

Wesley: Entrei por meio de cotas. Meu curso é integral e desde quando entrei na graduação sempre participei de grupos de extensão. Minha rotina é, basicamente, dentro da universidade. Me divido em aulas, grupo de extensão e participo de alguns movimentos estudantis.

Me fale sobre seu tema de pesquisa. Como teve a ideia de falar sobre o tema e por qual motivo ele é importante?

Wesley: Escrevi um trabalho com o tema "A construção da identidade política do aluno negro-surdo na universidade pública". Essa ideia surgiu a partir de muitas reflexões e também por conta de uma disciplina que cursei. Ao final dela, eu precisava criar uma intervenção relacionado políticas públicas e surdez. Então, pensei neste tema. Depois de outras leituras e compartilhamento de reflexões com amigos decidi escrever sobre o tema com a orientação da professora Diléia Martins.

Qual a ideia do tema?

Wesley: A ideia deste tema é causar uma reflexão sobre ser negro e surdo em uma universidade pública, já que estes corpos são marginalizados. Então, como pensar na identidade surda e na identidade negra? Como contrastar essas questões? O objetivo é indagar o percurso identitário vivido pelo estudante ao ingressar na universidade. O modo como o negro-surdo tem constituído suas experiências comunicativas no entremeio acadêmico está relacionado com implantação das políticas de ações afirmativas.

Como veio o convite para ir para Moçambique?

Wesley: A professora que me orientou neste trabalho foi informada deste congresso e me submeteu. Passou alguns dias e recebemos a carta de aceitação. Neste momento, foi uma grande alegria. E também foi um momento de muita reflexão de como iríamos fazer para viajarmos.

De onde veio a ideia de fazer a vaquinha?

Wesley: Depois de pedirmos recursos na universidade, não conseguimos arrecadar dinheiro suficiente. Então, tivemos a ideia de criar uma vaquinha on-line. E também de criar uma campanha na internet para chamar atenção e, com isso, custear as despesas de hotel, passagens aéreas, documentação, alimentação e transporte pelo país. Todos esses gastos ficarão acima dos R$ 7 mil. Mas eu queria agradecer pelo apoio que venho recebendo de familiares, amigos e da minha orientadora ao longo desta campanha. Eu também queria dedicar este trabalho à comunidade surda e, principalmente, aos negros-surdos. Gostaria de dizer que essa conquista não é só minha, é de todos nós.

Para participar da vaquinha, clique aqui.

Veja o vídeo em que Wesley explica sobre sua vaquinha: