De estudante promissora a investigada pela polícia: entenda a transformação da suspeita de desviar R$ 1 milhão de festa de formatura

Em entrevista ao Jornal da USP em 2018, Alicia Dudy Muller disse que sonhava em se especializar em cirurgias e gostava de ouvir e cuidar das pessoas. A jovem havia acabado de se tornar uma das 122 calouras da Faculdade de Medicina, um dos cursos mais disputados da melhor universidade brasileira.

No ano anterior, Alicia havia sido aprovada no curso de Farmácia da USP. Mas resolveu insistir na área médica, depois de três anos estudando no Poliedro, onde chegou a participar de uma das propagandas da conceituada rede educacional.

Seis anos depois, Alicia é investigada por apropriação indébita e lavagem de dinheiro, pela suspeita de que tenha desviado quase R$ 1 milhão que foi reunido pelos colegas da faculdade para celebrar a formatura, e usado o dinheiro em apostas na loteria em que ganhou cerca de R$ 300 mil.

Os jogos foram em uma lotérica de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, cujos funcionários denunciaram Alicia à Polícia Civil por aplicar um golpe com uma transferência de Pix para não pagar a última aposta de grande valor.

Sem explicação

Mesmo que todas as movimentações financeiras envolvendo Alicia sejam desvendadas pela delegada Kátia Martins, que investiga a estudante na Delegacia Especializada em Investigações Criminais (Deic) de São Bernardo do Campo, é provável que não seja esclarecido um mistério sobre a estudante: o que a fez deixar de ser uma promessa na Medicina para se tornar alvo da desconfiança da polícia e da indignação dos alunos com quem estudou na USP.

Moradora do Ipiranga, bairro de classe média de São Paulo, Alicia terminou o ensino médio em 2014, na Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, antes de seguir para os três anos no cursinho pré-vestibular do Poliedro. Depois de entrar na Faculdade de Medicina, publicou artigos em parceria com colegas sobre intubação de pacientes com Covid-19 e outros tratamentos para pessoas com a doença, conforme a página do currículo Lattes da jovem de 25 anos. Atualmente, faz residência no Laboratório de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas.

“O que me motivou a continuar prestando Medicina é a cirurgia. Eu ainda não tenho noção em que área me especializar, se seria neurologia ou oncologia. Essas duas são as que mais me atraem porque tem muito o que pesquisar. (Tenho) curiosidade mesmo de estar lidando com aquela situação de tratar uma pessoa, ter a sensibilidade de, com o tato, identificar o que está acontecendo, porque é muito sensível, delicado e desafiador. É uma coisa que eu gosto”, disse Alicia ao Jornal da USP, em fevereiro de 2018.

As declarações e os trabalhos acadêmicos não combinam com o perfil de Alicia que surge do inquérito sob a responsabilidade de Kátia. A delegada confirmou que a jovem ganhou cinco vezes na loteria no ano passado. A suspeita é de que as apostas tenham sido feitas após Alicia transferir para sua conta pessoal, no fim de 2021, R$ 927 mil dos formandos da Medicina da USP. As apostas de alto valor foram feitas entre abril e julho de 2022. Segundo o depoimento de um representante do estabelecimento à polícia, todos os jogos pagos pela jovem superaram R$ 461 mil.

A Deic pediu à Justiça a quebra de sigilo bancário de Alicia para confirmar as suspeitas sobre o desvio.

— O caso começou a ser investigado quando ainda não se sabia do golpe de formatura. Nos próximos dias, ouviremos pessoas da comissão para analisar a ordem cronológica dos fatos e comprovar se o dinheiro usado nas apostas era dos alunos. A jovem ainda não foi ouvida para não dar a ela subsídios de, talvez, fugir com as provas. Mas será em breve — explica a delegada.

Auxílio emergencial

Por meio de mensagens, Alicia afirmou a O GLOBO que ainda não tem advogado e não quer dar esclarecimentos sobre o desaparecimento do dinheiro da formatura. A estudante alegou que não quer nenhuma exposição “além da que já está ocorrendo”.

Os problemas com a lotérica e o dinheiro da formatura dos colegas podem não ser os únicos a serem enfrentados pela estudante. O nome de Alicia consta no Portal da Transparência do Governo Federal como tendo recebido R$ 3 mil de Auxílio Emergencial, benefício destinado apenas a pessoas de baixa renda. De acordo com o portal, ela teve depositados em sua conta bancária, entre junho e novembro do ano passado, R$ 3 mil, em cinco parcelas de R$ 600. Os valores não foram devolvidos à União.

Segundo informações obtidas pelo GLOBO junto a órgãos de controle de crédito, Alicia também deve R$ 801,19 no cartão de crédito e R$ 56,85 em contas de energia elétrica. O levantamento mostra que as dívidas são referentes a gastos de novembro e dezembro do ano passado.

Microempreendedora

Dados de registro de abertura de empreendimentos de setembro do ano passado mostram ainda que Alicia abriu uma empresa com apenas R$ 1. A estudante conseguiu ser enquadrada como Microempreendedora Individual (MEI). A empresa, que não apresenta um segmento específico, apenas cita que se refere à área da educação, e ainda está com CNPJ ativo.

O inquérito comandado por Kátia, aberto em julho, investiga a denúncia de que Alicia causou um prejuízo de R$ 192.908,47 à casa lotérica onde costumava jogar, por não ter pago por uma aposta de R$ 891,5 mil — ela teria feito uma transferência por Pix de R$ 891,5, que apresentou aos funiconários do estabelecimento, para tentar enganá-los. Após uma discussão, saiu com cinco apostas de R$ 38,7 mil cada.

Colaboraram Paulo Assad e Mariana Rosário, de São Paulo