Estudantes nota dez: jovens aprovadas em universidades americanas dão dicas para quem quer estudar fora

Gisele Araújo*
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RIO — Duas adolescentes com trajetórias distintas e o desejo em comum de estudar fora do país estão prestes a realizar seu sonho. Moradora do Recreio e egressa da rede particular de ensino, Isabela Guimarães, de 18 anos, foi aprovada em sete universidades dos Estados Unidos e aguarda o resultado do processo de seleção de outras quatro. Já Jéssica Honorato, moradora de Curicica e aluna da rede pública ao longo de todo o fundamental, vibra com as duas bolsas de estudo integrais que conquistou, também para faculdades americanas. Cada uma tem sua receita para o sucesso. Mas a dedicação total aos estudos e o empenho em buscar informações sobre o processo de seleção, dizem, foram fundamentais.

Isabela, que é atriz e já trabalha com produção e roteiro para audiovisual, vai cursar Cinema. Conta que decidiu estudar no exterior por acreditar que assim terá mais oportunidades nessa área.

— Desde pequena sempre tive o sonho de estudar nos EUA, mas, pela questão financeira, isso me parecia algo distante. Mesmo assim, comecei a pesquisar para saber como poderia seguir esse sonho. Geralmente a preparação se faz em quatro anos, e eu fiz em seis meses!. Foi muito corrido, tive muitos erros, mas muitos acertos também. E não basta somente fazer redações em inglês; tinha que manter boas notas na escola — conta a jovem, que é filha única e vive com os pais.

Entre as faculdades em que foi aprovada estão a School of Visual Arts, de Nova York, e a Columbia College, de Chicago.

— Tive o cuidado de procurar as faculdades que tinham a ver comigo e que me respeitassem como uma mulher latina. O mundo do cinema é dominado por homens; a gente não estuda sobre Suzana Amaral ou Petra Costa. E fui aprovada justamente por destacar o que era importante para mim — conta a estudante.

Em 2020, Isabela teve que conciliar o último ano do ensino médio, na unidade Barra do colégio bilíngue CEL, com os testes e redações em inglês dos processos seletivos, além da produção de um curta-metragem, também exigido por alguns.

— Eu tive que me organizar muito. Estudava das 7h às 16h na escola, e nos intervalos estava sempre praticando meu inglês e fazendo redações. Não houve um dia em que eu não estudasse. Nesse meio tempo, ainda escrevi o roteiro do curta, em que falei sobre compulsão alimentar. Era algo por que eu estava passando na época, e achei que mostrar meu lado pessoal em uma produção pudesse me destacar — relata.

Isabela também procurava conteúdo sobre intercâmbio acadêmico na internet, fez testes gratuitos disponibilizados pela ONU e montou um clube de cinema para discutir o papel da mulher no audiovisual. A estudante conta que a equipe do colégio também a ajudou com orientações. Agora, resta à estudante escolher, em meio a tantas opções, qual melhor se adapta às suas necessidades e ao seu bolso, já que as bolsas são parciais. Outra preocupação é com a pandemia e o atraso do calendário de vacinação no Brasil. O consulado americano ainda não decidiu se as duas jovens cariocas poderão viajar para cursar o primeiro semestre presencialmente.

— Estou conversando com o departamento internacional de algumas faculdades e recebendo um suporte legal. Mas não queria fazer o primeiro período à distância — diz Isabela.

Moradora de Curicica quer fazer pesquisa científica

No caso de Jéssica Honorato, o sonho de estudar fora veio depois de assistir a uma reportagem do “Fantástico” que contava a história da deputada federal Tábata Amaral (PDT), diplomada em Ciências Políticas e Astrofísica pela Universidade de Harvard. A partir daí, ela começou a procurar meios que pudessem lhe abrir portas.

— Eu me identifiquei com a história dela e decidi que também queria estudar nos EUA. Fiz o ensino fundamental numa escola pública e fui para uma particular no ensino médio. Sou filha única, de mãe solo, e a primeira da família a entrar em uma universidade — orgulha-se.

Jéssica foi aceita em duas universidades: Dartmouth College e Wellesley College, em Massachusetts, voltada para a formação de lideranças femininas. A estudante ainda tem dúvidas sobre que curso fará, mas sabe a área:

—Pretendo explorar as áreas de neurociência e psicologia, pois sempre soube que gostava de estudar o comportamento do ser humano. Também vou poder me engajar em pesquisas científicas, área em que é mais difícil trabalhar no Brasil.

Integrais, as bolsas de estudo que conseguiu cobrem, além da anuidade das faculdades, os custos com moradia, saúde, alimentação e material escolar. Para concorrer à bolsa, ela participou do Programa Oportunidades Acadêmicas, voltado para alunos que buscam o processo seletivo de instituições no exterior mas não têm suporte financeiro. O programa é uma iniciativa da instituição EducationUSA, órgão ligado ao Departamento de Estado americano.

— A Jéssica tem o perfil de aluna campeã — comenta a coordenadora do escritório do Rio de Janeiro do EducationUSA Brasil, Simone Ferreira. —Ela ganhou a bolsa por necessidades financeiras, mas teve um ótimo desempenho, tirava notas altas na escola e tem um inglês excelente, além de estar sempre preocupada em melhorar a sua realidade e a realidade à sua volta.

Para ajudar outros alunos com realidade e interesses parecidos com os seus, Jéssica criou um clube de estudos que dá suporte a quem estudar fora:

—Por muito tempo na minha vida eu estudei em um lugar que não gostava, e hoje estou feliz indo para a universidade. E reitero: se alguém tem o sonho de estudar em qualquer lugar, não deve desistir. No fim, dá certo.

* Estagiária, sob supervisão de Lilian Fernandes