Estudantes viajam cinco horas de barco para fazer prova do Enem

Paula Litaiff e Bruno Pacheco
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Railton do Nascimento de Amorim, 17, viajou cinco horas para chegar ao local onde fará o Enem

MANAUS — Com uma renda familiar de um salário mínimo (R$ 998), o estudante Railton do Nascimento de Amorim, 17 anos, disse ver nos estudos a oportunidade de mudar sua realidade e a dos outros sete irmãos, que são filhos de agricultores e moram, juntos, em uma comunidade no meio da Floresta Amazônica, o Lago do Mundurucus, no município de Manacapuru, a cerca de 100 quilômetros de Manaus.

Candidato a uma vaga de Pedagogia no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Railton saiu de casa por volta das 4h da manhã deste domingo, 10, pegou um barco e viajou por 60 quilômetros até a zona urbana de Manacapuru, onde ocorre a prova na Escola Estadual André Vidal de Araújo. Assim como ele, cerca de 100 estudantes da mesma comunidade e de vilarejos adjacentes fizeram o trajeto neste final de semana.

— Para quem sonha com mudança de vida, nenhum lugar é tão longe. É a primeira vez que faço o Enem e acredito que posso ser aprovado. Meu sonho é melhorar a vida dos meus pais que sofrem todos os dias no Sol e na chuva para sustentar a nossa família — afirmou o estudante, que disse ser normal a rotina de acordar muito cedo para ir à escola.

Como chegou por volta das 9h no local da prova do Enem, Railton – que cursa o terceiro ano do ensino Médio – aproveitou o período de quase duas horas para rever o conteúdo das provas de Ciências da Natureza e Matemática e reler suas respostas do exame feito no domingo passado. No Amazonas, as provas do Enem começaram às 12h, por conta do fuso horário local.

— Estou relembrando a estrutura e a lógica das perguntas que são mantidas, independentemente, das disciplinas. Mas também estou revisando o conteúdo de Matemática, que sempre foi um desafio desde o ensino Fundamental — relatou.

Trabalho com computadores

Colega de viagem de Railton, a estudante Raiany Santos da Silva, 17 anos, um pouco mais tímida, afirmou que o sonho dela é trabalhar com os computadores e por isso busca uma vaga no curso de Ciências da Computação no Enem deste ano.

Moradora de uma comunidade vizinha a de Railton, a São Francisco, a estudante também acordou de madrugada e viajou mais de 50 quilômetros até Manacapuru, onde ocorre a prova do Enem.

— No percurso até o local da prova do Enem, eu, o Raiton e outros colegas falávamos das dificuldades dos nossos pais em não nos colocar no trabalho diário das plantações para termos tempo de nos dedicarmos aos estudos. Não podemos decepcioná-los — afirmou a jovem.

Assim como outros colegas de viagem, ela também é filha de agricultores, e sua família vive com uma renda de um salário mínimo. Raiany tem três irmãos, e disse que a falta do dinheiro não é o grande problema das famílias que vivem nas comunidades da região amazônica.

— Como a gente troca muita coisa com os vizinhos e temos as nossas plantações, não temos problemas em passar fome. O nosso problema é a falta perspectiva de vida para os jovens que sonham em tirar seus pais das comunidades para conhecer o mundo — disse a estudante.

*Da Agência Amazonas1