Estudo da Coronavac com 17 mil pessoas confirma efetividade da vacina, mas reforça importância de idosos manterem uso de máscaras e distanciamento

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SÃO PAULO — Um estudo conduzido em São Paulo sob financiamento da Organização PanAmericana de Saúde (Opas) constatou que a vacina Coronavac é efetiva contra a Covid-19 em idosos acima de 70 anos, apesar de seu desempenho cair conforme a idade. O imunizante, que havia demonstrado eficácia de 50,7% num estudo com trabalhadores da saúde, apresentou resultado de 41,6% entre idosos, grupo que normalmente responde pior a vacinas em geral.

Como a vacina demonstrou ter boa eficácia contra doença grave e internação em seu estudo clínico, reforçam os autores, a queda de efetividade entre os mais velhos não compromete a importância da campanha de vacinação.

Assinam o trabalho o infectologista Júlio Croda, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, o pneumologista Otávio Ranzani, do Instituto de Saúde Global de Barcelona, e outros 17 cientistas. O trabalho, que acompanhou quase 17 mil vacinados, foi publicado na forma de "pré-print", ainda sem revisão de grupos independentes.

Segunda dose é fundamental, conclui estudo

Os pesquisadores afirmam ainda que o desempenho da vacina se manteve razoável mesmo num cenário de transmissão com uma variante preocupante da doença, a P.1, que emergiu em Manaus. "Constatamos que um regime de duas doses de Coronavac foi efetivo em prevenir Covid-19 sintomática mesmo entre indivíduos idosos num cenário com extensa transmissão da variante P.1", escreveram os cientistas no estudo.

"Contudo, o desenvolvimento de proteção iniciando apenas 14 dias depois da aplicação da segunda dose e o declínio em efetividade entre grupos mais idosos realçam a necessidade de manter medidas de intervenção não farmacêuticas durante vacinação em massa." Em outras palavras, os autores reforçam que existe a necessidade de se continuar as políticas de distanciamento social e ouras formas de prevenção de contágio para combater à epidemia, junto da campanha de vacinação.

A importância do trabalho bancado pela Opas é que ele foi o primeiro a dar um recorte exclusivo para a medição da efetividade da vacina entre idosos, que tinham sido um grupo minoritário no teste clínico iniciado no ano passado.

Os principais pontos do estudo, segundo os autores, são a constatação esperada de que a efetividade cai com a idade dos vacinados, e a indicação de que a segunda dose é extremamente importante no caso dessa vacina. Segundo eles não se verificou "efetividade significativa" do imunizante após primeira dose.

Apesar dessas limitações, em nenhum trecho do estudo os autores afirmam que a CoronaVac possa não não ser efetiva, em média, nos idosos.

"A vacina foi efetiva nessa população com 70 anos ou mais, apesar de a efetividade cair com a idade", escreveram. Esse resultado, afirmam os cientistas, é "consistente" com os números do teste clínico da vacina.

A constatação de um desempenho pior nos mais velhos, porém, pode inspirar gestores públicos a alterarem suas políticas de vacinação a partir o momento em que mais vacinas estiverem disponíveis, reservando os produtos que se provarem mais efetivos para aqueles idosos acima de 80 anos que ainda não se vacinaram. Nessa faixa mais idosa, a Coronavac demonstrou efetividade geral de 28% no estudo da Opas.

Apesar de o trabalho ainda não ter avaliado o grau de proteção contra doença grave e morte por Covid-19 nos idosos, os cientistas afirmam que os números de mortalidade do Brasil sugerem um bom desempenho da Coronavac, que foi a vacina mais usada no país.

"Uma análise preliminar (...) mostrou diminuição relativa daqueles com 80 anos ou mais entre as mortes por Covid-19 comparados com aqueles de todas as idades depois que a vacinação começou no país com a Coronavac e a ChAdOx1 (vacina de Oxford), sugerindo um impacto perceptível da vacinação contra os desfechos mais severos."