Estudo em Pelotas aponta alto índice de transmissão em casa e aumento de subnotificações de Covid-19 no RS

Rafael Oliveira
O estudo feito pela Universidade de Pelotas realizou 4.500 testes rápidos entre 25 e 27 de abril

RIO - O Governo do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) apresentaram, nesta terça, os dados da segunda rodada da pesquisa que tenta levantar o real percentual da população que já teve contato com o novo coronavírus no estado. Com os novos resultados, já é possível ter uma noção da evolução da Covid-19 dentro das fronteiras gaúchas. E eles mostram um aumento das subnotificações: o número de pessoas que já foram contaminadas pode ser até 17 vezes maior do que o oficial.

A coleta de dados da segunda fase da pesquisa foi realizada entre os dias 25 e 27 de abril. Ao contrário da primeira rodada, desta vez todos domicílios sorteados concordaram em participar. Com isso, foram 4.500 testes do tipo sorológico (cujo resultado sai em cerca de 15 minutos) em nove cidades do estado.

Seis pessoas apresentaram resultado positivo, o que corresponde a 0,13% do total de testes. Comparado à população total do Rio Grande do Sul (11,3 milhões), equivale a 15.066 gaúchos. Na primeira primeira fase, esta proporção era de 0,05%.

O teste sorológico, chamado de teste rápido, não detecta a presença do Sars-CoV-2 no organismo, mas sim dos anticorpos que o organismo produz na presença dele. Ou seja: seu resultado vem sendo questionado por especialistas. Além disso, sua precisão é maior se considerarmos que retrata uma realidade de até duas semanas anteriores (e não do momento em que a pesquisa foi feita). Como há 14 dias o Rio Grande do Sul registrava 888 casos positivos de Covid-19, isso significa que o contágio nas ruas pode ter sido até 17 vezes maior. O primeiro levantamento estimou um número de infectados até 15 vezes maior.

- O estudo não representa a realidade do dia da coleta, mas de algum tempo atrás. Porque existe uma demora na maioria dos casos entre a pessoa ter tido contato com o vírus e o desenvolvimento dos anticorpos - reforça Pedro Hallal, reitor da UFPEL e coordenador do trabalho.

A estimativa é de que haja 1.300 infectados para cada 1 milhão de habitantes no estado. Na primeira rodada da pesquisa, este prognóstico era de 500 contaminados para cada 1 milhão de gaúchos.

Outra diferença em relação ao estudo anterior está na adesão às recomendações de distanciamento social. Agora, ela está menor. Dos 4.500 entrevistados, 28,3% confessaram que saem de casa diariamente. Antes, este percentual era de 20,6%. Por cidades, onde as pessoas mais admitiram ir às ruas todos os dias foram Ijuí (33,8%), Passo Fundo e Santa Cruz do Sul (33,6% em ambas).

Contaminação em casa

A principal novidade - e uma das maiores contribuições desta fase da pesquisa - foi a testagem de pessoas que moram com os seis que testaram positivo: 12, ao todo. O teste apontou que nove delas também já tiveram contato com o novo coronavírus.

Segundo Hallal, estas pessoas não estão computadas entre os casos positivos porque não foram sorteadas para a realização do teste, o que superestimaria a prevalência populacional. Isso porque o estudo é baseado na aleatoriedade. Se as cidades utilizadas na pesquisa são definidas de acordo critérios do IBGE, o mesmo não ocorre com os domicílios. Neste caso, a definição se dá por sorteio, assim como a do morador. No entanto, este alto índice de contaminação serve para mostrar a importância do rastreamento de contatos, prática na qual quem esteve mais próximo de um infectado também é testado e isolado.

- Este dado confirma que há uma transmissibilidade alta no ambiente domiciliar, o que já era esperado diante das informações que temos de outras pesquisas - completa Hallal.

Pesquisa nacional

Daqui a duas semanas, os entrevistadores voltarão às ruas para entrevistar e coletar o sangue dos gaúchos. Ao todo, serão quatro etapas. A expectativa é de que, no fim, cerca de 18 mil testes sejam realizados.

O mesmo levantamento será realizado em escala nacional. O Ministério da Saúde, que encomendou o estudo à UFPEL, liberou R$ 12 milhões para sua realização, além de ter doado 100 mil kits de testes rápidos. Inicialmente, especulou-se que o IBGE poderia fazer o trabalho de entrevistar e coletar o sangue da população. Mas o órgão dará apenas suporte logístico à operação. O Ibope assinou contrato para realizar este trabalho. A expectativa é que a primeira rodada de coletas tenha início em 5 de maio.