Estudo de epidemiologista indica subnotificação de mortes por Covid-19 em São Paulo

Dimitrius Dantas

SÃO PAULO - A cidade de São Paulo registrou, em março, 743 mortes a mais por causas naturais do que a média para o mês nos últimos cinco anos. Os números foram reunidos pelo epidemiologista Paulo Lotufo, da Universidade de São Paulo, junto ao Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade (PRO-AIM), da Secretaria Municipal de Saúde.

Em março, a cidade teve 277 mortes confirmadas por Covid-19. Mas, de acordo com Lotufo, os números sugerem que a doença responde por um número maior de óbitos no período. Os dados foram publicados inicialmente pelo "Blog do Hélio Gurovitz", no "G1", e posteriormente obtidos pelo GLOBO. Os números não levam em conta mortes por acidentes ou homicídios.

Outros fatores que fortalecem a hipótese de que o novo coronavírus é o principal responsável pelo aumento nas mortes é o período em que elas ocorreram, segundo Lotufo. A diferença de mortes só foi observada no mês de março e está concentrada, sobretudo, na segunda quinzena do mês, quando começaram a surgir os primeiros casos da doença.

- Esse número reflete melhor o quadro da epidemia, porque deixamos apenas as mortes por doença e o fato de que essas 743 pessoas morreram é indubitável. Se foi pela Covid ou não é outra questão, porque depende do teste, se foi feito, se foi feito a tempo, se a amostra era boa. E esse número aumenta justamente quando aumentam os casos - diz o epidemiologista.

Mesmo que todas as 743 mortes não tenham sido causadas diretamente pela doença, Lotufo acredita que esse diferencial pode ser atribuído à chegada do novo coronavírus no país. De acordo com eles, a doença pode agravar a situação de pessoas já doentes por outras razões, como problemas cardíacos. Esses pacientes podem, por exemplo, sofrerem mortes súbitas antes mesmo de apresentaram mais sintomas da doença.

Doença pode levar à morte por outras razões médicas

Além deles, Lotufo cita casos de pessoas que evitam ir ao hospital ou encontram as unidades lotadas. Os problemas, com isso, podem se agravar e levar à morte por outras razões médicas. O impacto geral nos números, entretanto, continuaria sendo causado pela Covid-19.

- Uma pessoa que nunca teve problema no coração, por exemplo, quando tem a dor pode pensar que não vale a pena ir para o hospital. Todo mundo sabe que o melhor lugar para se infectar com um problema respiratório é ficar na fila de hospital. Depois, pode ser tarde - diz.

Outro ponto que chamou a atenção do epidemiologista foram as mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma das principais complicações causadas pelo novo coronavírus. Conforme o GLOBO revelou, o número de mortes e internações pela doença explodiram no Brasil, muito embora a maioria dos casos não tenha sido identificada em testes como causadas pelo coronavírus. Para Lotufo, é improvável que esses casos não tenham sido causados pelo novo coronavírus. Segundo ele, outros vírus, como o influenza, que causa a gripe comum, tiveram mais casos, mas não na mesma proporção.

A pesquisa ainda não conta com os dados de abril completamente processados. Até o último domingo, foram registradas 5.612 mortes no mês, um número já superior ao catalogado nos últimos anos. Entretanto, ele deve crescer ainda mais.

- A pandemia tem um impacto na coleta de dados. Tudo fica mais difícil, os enterros, os cartórios, a movimentação da documentação.