Estudo mostra que cidades com mais desmatamento têm mais focos de queimada

Estudo relacionou focos de incêndio com pontos do desmatamento na Amazônia. (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Informação contradiz afirmação do ministro do Meio Ambiente de que o fogo foi causado naturalmente

  • Queimadas são feitas após derrubada de árvores e com objetivo de ocupar terras, diz pesquisador

Pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e da Universidade Federal do Acre emitiram uma nota técnica explicando que os 10 municípios da Amazônia Legal com maior índice de desmatamento também têm o maior número de focos de incêndio.

O estudo mostra, também, que é errado afirmar que as queimadas são consequência do período de secas natural da região – em anos anteriores, quando a estiagem foi mais severa, houve menos focos de incêndio.

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Os pesquisadores listaram os seguintes municípios, começando pelo que mais tem focos de desmatamento e queimada: Apuí (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO), Caracaraí (RR), São Félix do Xingu (PA), Novo Progresso (PA), Lábrea (AM), Colniza (MT), Novo Aripuanã (AM) e Itaituba (PA). As informações são do portal BBC Brasil.

“Estes municípios são responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho. Esta concentração de incêndios florestais em áreas recém-desmatadas e com estiagem branda representa um forte indicativo do caráter intencional dos incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas", dizem na nota.

Os dados apresentados pelos pesquisadores são baseados em três fontes: o Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD), do instituto Imazon; os dados sobre queimadas (ou "focos de calor", no jargão técnico) vêm do satélite AQUA (que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. considera o satélite de referência); e o número de dias consecutivos sem chuva é da base de dados CHIRPS, desenvolvida por cientistas do Serviço Geológico dos EUA (USGS) e da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Foram considerados os dados de desmatamento de janeiro até julho de 2019, e os focos de calor do começo do ano até o dia 14 de agosto.

"A dinâmica é a seguinte: derrubar a floresta, esperar alguns meses para ela secar, e aí atear fogo. Se você tentar botar fogo no dia seguinte, não vai queimar, pois a vegetação estará molhada", explica o climatologista Carlos Nobre à BBC News Brasil. "Espera-se uns dois meses, e aí põe fogo. E sempre, em todos os anos, agosto e setembro são os meses com o maior número de queimadas".

Na última terça-feira (20), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insistiu que os incêndios têm causas naturais: “Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País”, postou em seu Twitter.

Já o presidente Jair Bolsonaro (PSL) reconheceu que os incêndios são criminosos, mas culpou ONGs e populações indígenas pelas queimadas: "Pega-se fogo. É comum. Na Califórnia. Acontece, e daí. Aqui (no Brasil) tem o viés criminoso? Tem. Sei que tem. Quem é que pratica isso? Não sei. Os próprios fazendeiros, ONGs, seja lá o que for, índios. Então existe esse interesse (de outros países) de dizer que nós não somos responsáveis, e quem sabe, mais cedo ou mais tarde alguém decrete uma intervenção na região amazônica", disse.

O pesquisador Luís Fernando Guedes Pinto, do Instituto Imaflora, disse à BBC News Brasil que o objetivo das queimadas não é aumentar a produção dos fazendeiros, e sim a propriedade.

"Esse fogo é parte de uma questão de disputa de terras. É um movimento para limpar e ocupar as áreas, e não para aumentar a produção. O objetivo é ocupar, na expectativa de que as terras serão regularizadas depois", diz ele.