Estudos de gênero vs método científico

Uma coisa que sempre me espanta é o desprezo de pessoas que leram meia dúzia de livros sobre teoria queer em relação à ciência. O feminismo contemporâneo parece especialmente suscetível a esse mal. Estava assistindo a um debate sobre feminismo, promovido pela Jovem Pan, e logo nos primeiros minutos uma das garotas me solta isto: “A biologia é coisa do século passado.”

Ê, pós-modernismo.

Se o problema ficasse por aí, nada a dizer. Acontece que o desprezo à ciência começou a ganhar novos contornos nos últimos tempos. Anne Fausto-Sterling, professora de estudos de gênero, mostrou, num artigo, como feministas podem evitar críticas quando dados estatísticos não batem com a ideologia do movimento. Em resumo, desconstruindo a ideia de autoridade: “O feminismo tem mudado a percepção de onde vem o conhecimento, de quem tem autoridade”. E acrescenta: “Um estudo que utilize abordagens feministas para alcançar o conhecimento, tais como entrevistas narrativas ou outro tipo de amostragem mais diversificada, pode produzir um conhecimento mais robusto.” Dito de outra forma: na opinião da docente, passageiros aleatórios de um vagão de metrô podem ter tanta autoridade quanto cientistas, se assim ela entender.

O resultado desastroso dessa ideia já pode ser observado pelo mundo afora. Malin Ah-King, professora de estudos de gênero, bióloga sueca e seguidora de Fausto-Sterling, nega a teoria de seleção sexual de Darwin; nega o chamado Paradigma Darwin-Bateman por motivos ideológicos. O Paradigma Darwin-Bateman afirma, entre outras coisas, que há um motivo biológico pelo qual fêmeas são mais recatadas do que machos. Para a terceira onda do feminismo, essa ideia soa absurda.

O problema de boa parte da abordagem feminista de hoje é que ela nada tem de científica. Na ânsia de justificar uma ideologia, vale passar por cima dos fatos empíricos e da tal biologia.

Se você repete que o gênero é apenas uma construção social, por exemplo, você acredita em qualquer coisa, não em ciência: pode chamar isso de licença poética, crença religiosa, esoterismo ou dar um outro nome para o bicho.

A ideia que você pode negar a biologia evolutiva quando fala da cultura humana é apenas ignorância. Existe um motivo biológico pelo qual machos e fêmeas, em geral, têm papéis diferentes no cuidado parental, o que não significa que você deva concordar com esses papéis. Eis um dos pontos mais importantes da civilização, aliás - ir além desses papéis.

Insistir no dogma que as diferenças entre homens e mulheres vêm apenas da relação opressiva de poder e do patriarcado, sem levar em conta a evolução, não apenas é falho como prejudicial para a investigação científica.

Por último, discutir a igualdade de gênero não significa tratar as pessoas como crianças, a quem contamos uma mentirinha como a história da cegonha para explicar a origem dos bebês. Reconhecer o lado sombrio da natureza humana não é o mesmo que justificá-lo. Negar a realidade não contribui nada para a civilização.


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