Estupro coletivo e a rotina da violência contra a mulher no Brasil: dá para mudar esta cultura?


O estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos no Rio choca. “Quando acordei tinha 33 caras em cima de mim”, disse a jovem, já no hospital onde tomou coquetel antiHIV, pílula do dia seguinte e vacina para hepatite B.

A menina estuprada no Rio faz parte de uma (macabra) rotina: calcula-se que são 500 mil estupros por ano no país. Muitas vezes a vítima é desqualificada: “ela provocou”, “é invenção dela”, “ela estava de minissaia”. Faz parte de um modo de agir diante de uma tragédia que afeta milhares de mulheres.

No Brasil uma mulher é assassinada a cada 90 minutos, em geral dentro de casa. A cada 5 minutos uma mulher é agredida. Uma pesquisa do Énóis Inteligência Jovem com 2.285 jovens revelou que 41% sofreram algum tipo de agressão física por parte de homens; 77% sofreram assédio físico, desde estupro até toque ou beijo forçado.

A agressão faz parte de uma cultura. Cultura é uma palavra muito ampla que comporta muitos significados. Um deles, é que cultura é todo um modo de vida. No Brasil, existe, pois, uma exacerbada cultura de violência contra a mulher.

Como quebrar este ciclo?

O Brasil tem caminhado, de alguma forma. Novas leis como a da Maria da Penha e do Feminicídio ajudam. Delegacias, Casas da Mulher, Disque-Denúncias, também. Mas, e a cultura da violência contra a mulher, aparentemente tão entranhada?

Sem quebrarmos nosso arraigado machismo será difícil sair da cilada de uma sociedade que faz das desigualdades – de gênero, raciais, sociais – toda uma forma de viver. Nestes termos, acredito, pagamos tributo ao nosso passado de 350 anos de escravidão. O pensamento machista, a meu ver, ecoa o pensamento escravocrata: de a mulher ser propriedade do homem. Assim como o escravo foi posse do senhor, a mulher o é do homem – daí a brutalidade, o mando, como traço cultural e de manutenção de hierarquias brasileiras. Por isso o feminismo incomoda tanto.

Enfrentar a violência contra a mulher no Brasil é um trabalho para gerações ao mesmo tempo que urgente. A tragédia da adolescente estuprada por 33 homens no Rio me lembrou disso.

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Imagem:upslon/flickr