Ethan Hawke: 'Estou cansado de roteiros que entregam tudo. Explicação demais, cansa'

No começo, era a voz. O diretor Scott Derrickson já havia trabalhado com Ethan Hawke, em “A entidade” (2016), mas tinha dúvidas se ele era o ideal para viver um sádico sequestrador e assassino de crianças em “O telefone preto”, thriller de terror celebrado pela crítica no Hemisfério Norte, no próximo dia 21 nos cinemas brasileiros.

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A incerteza faz sentido. Na cabeça do diretor de “Doutor Estranho” estavam “Sociedade dos poetas mortos” (1990), “Dia de treinamento” (1991, primeira indicação de Hawke ao Oscar), a trilogia “Antes do amanhecer” (a partir de 1995, com Julie Delpy) e “Boyhood” (2015, mais recente parceria do ator com Richard Linklater e sua segunda indicação à estatueta). Interpretações intensas e delicadas, distantes do estereótipo dos vilões de terror.

— Mas Ethan é dos poucos atores que conheço capazes de alterar a voz, em um segundo, de um registro bem fino para um assustadoramente grosso. Ouvi e reouvi a voz dele nos filmes e decidi: o protagonista era aquela voz, o dono dela agora tinha que fazer — conta, rindo, o diretor.

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Quando recebeu o telefonema de Derrickson, Hawke acabara de completar 50 anos. E queria (“não, precisava”, diz) fazer algo fora de sua zona de conforto. “O telefone preto”, ele percebeu já na leitura do roteiro, não era um filme de terror caricato repleto de clichês. Jamais se saberá, por exemplo, por que “the grabber” (em tradução livre “o que te pega”), como é chamado seu personagem, sequestra crianças nas ruas de Denver, no estado americano do Colorado, nos anos 1970. Também é um mistério ele se movimentar como um mágico e colecionar balões pretos em sua van.

Não importa. Inspirado em conto de Joe Hill (filho do escritor Stephen King), que Derrickson encontrou por acaso em uma livraria de Los Angeles, o filme investiga como o mal a nos circundar pode ganhar dimensões ainda maiores pelo olhar das crianças. Os irmãos vividos pelos impressionantes Mason Thames (Finney) e Madeleine McGraw (Gwen) já vivenciam seu horror particular — u m pai abusivo e alcoólatra e o bullying violento na escola —antes do sequestro de Finney. Derrickson leva o espectador para passear por um jardim de horrores até se chegar ao porão da casa do sequestrador, onde a única pista para a libertação parece vir do telefone preto do título.

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Para a conversa por videochamada com O GLOBO, no entanto, Hawke surge distante de seu personagem. Esparramado no sofá de sua casa no bairro de Boerum Hill, no Brooklyn, em Nova York, o ator veste uma camisa esportiva larga e a barba está por fazer, à vontade após uma maratona de “Stranger things”.

Maya Hawke, a Robin da série da Netflix, é a mais velha de seus dois filhos com Uma Thurmann, com quem foi casado entre 1998 e 2005. O ator tem outras duas filhas do segundo casamento.

Ele e Maya trabalharam juntos, como pai e filha, na série “The good lord Bird”, da Showtime, há dois anos. Sua maior ansiedade, disse à época, foi sobre a percepção que a cria teria de seu talento: “Sou mesmo o ator que disse pra ela que era? Aquele que fala sobre atuação, sobre o mistério de se contar uma história? Foi uma experiência incrível!”.

Leia abaixo os melhores trechos da conversa do pai de Maya com O GLOBO:

Por que o desejo de encarnar um assassino doentio?

Desde que comecei nesse negócio de atuar, meu mote central era o de não me repetir. Mas vai ficando cada vez mais difícil: como experimentar algo novo depois dos 50 anos no mesmo trabalho? Quis fazer este vilão sem nome, diabólico. Quis passar o filme quase todo usando máscara, parecia que estava fazendo teatro, e dos bons. Na minha cabeça, há tempos, pensava: “Ethan, meu filho, faça um filme pra galera da meia-noite. Galera que, aliás, você conhece muito bem (risos)”.

Foi quando veio “A entidade”, sua primeira parceria com Scott Derrickson...

Sim. Ali aprendi muito sobre meus preconceitos, e, com o Scott, sobre a geometria do horror, a maneira de se contar uma história gótica, o que de fato nos assusta, o que há de tão fascinante na linguagem de um filme como “O telefone preto”.

Que mistério o horror tem?

Para mim, vários, e ainda não os resolvi todos. Minha imaginação não gravita em torno de vilões, não gosto de convidar negatividade pra minha vida. Mas há algo em “O telefone preto” relacionado especialmente aos papéis das crianças que me remete a “Conta comigo” (clássico de Rob Reiner dos anos 1980, com River Phoenix, Corey Feldman, Richard Dreyfuss, John Cusak e Kiefer Sutherland).

“Conta comigo”, jura?

Juro! (risos). Que, claro, não é um filme de terror, mas os olhares, os gestos, a esperança de salvação e a parceria dos meninos tentando aprender com a dureza da vida, repleta de perigos, me transportou para o filme que vi quando tinha 16 anos e me marcou muito. Os dois filmes tratam de um lugar em que você não pode mais se ver apenas como vítima ou não sobreviverá incólume, mas, por outro lado, você também ainda não é um adulto. É preciso se mexer com o pouco que se tem, perceber seus erros, ser grandioso para pedir perdão, mudar de verdade e seguir em frente. Como vejo a vida aos 50, né? (risos). Em “O telefone preto”, os meninos enfrentam seus medos e monstros, representados pelo meu personagem.

Madelaine e Mason são fundamentais para o filme...

Sim! Eles foram bençãos, pareciam veteranos e irmãos de verdade. Observei tudo, com a maior atenção (Hawke também é diretor), não me restringi ao mundo tenebroso do meu personagem.

O roteiro é baseado no conto de Joe Hill, mas vai além. E pouco se sabe sobre seu personagem. Foi complicado encontrá-lo?

Não havia passado fictício pra pesquisar. Mas sabe que esse foi um fator para eu desejá-lo? Estou cansado de roteiros “completinhos”, que entregam tudo, do início ao fim. Explicação demais, a esta altura, às vezes cansa (risos). Pensei em coisas que me metem muito medo, o fundo do mar, o sótão de uma casa de noite sem luz elétrica, o espaço sideral, o desconhecido. E entendi que, se buscasse respostas para este sujeito, ele ficaria menos assustador. E queria aterrorizar mesmo (risos).

Funcionou...

Queria que ele representasse o mal encarnado, alguém voltado para destruir a juventude, os mais novos, o pior tipo de pessoa que existe, aquele que extermina o futuro dos outros, e isso vale pra qualquer espectro da vida. Nunca havia encarnado alguém assim, tão nefasto. Ele não precisa fazer sentido racional, nem pra mim, nem pro Scott, nem pro público. E isso, além de ter sido um exercício incrível, me deu liberdade inédita.

Ele surge como um mágico, aparentemente dócil. Você criou uma coreografia para ele, não?

Foi exatamente o que tentei fazer. Uma coreografia minimalista, com gestos intensos, mas econômicos.

Simplicidade te interessa?

Cada vez mais me interesso por histórias contadas do modo mais simples possível, não tenho mais tempo a perder. Como uma bela canção popular, o melhor de Matisse, os quartetos musicais mais entrosados. Foi o que, modestamente, quis fazer.

Além de destacar sua atuação, a crítica americana faz paralelos entre seu personagem e o Pennywise de “It ” (baseado nos livros de Stephen King, pai de Joe Hill). Faz sentido?

Faz. Cheguei a testar maquiagem de palhaço, mas ficava próximo demais de “It”. Os dois, aliás, são, na palavra de seus criadores, a personificação do mal, que vive adormecido no fundo de nossos medos. Freddy Krueger e Jason também representam este medo que precisamos vencer para seguir em frente.

Saiu das filmagens com a carteirinha de fã de filmes de horror?

Tenho carteirinha de fã de filmes bons. Quando vi “Corra!” (2017), do Jordan Peele, pirei. Um filme de horror pôde ser tão revelador politicamente, um pequeno milagre. Um ano depois, “Hereditário”, com Toni Collette, tirou meus pés do chão. A dela foi das melhores performances recentes do cinema. Filmes de gênero, especialmente os de horror, quase não ganham prêmios ou reconhecimento, são percebidos como “aquela bobagem pra se divertir”. Pois a única bobagem aqui é o preconceito.

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