'Eu me converti ao Islã na mesquita que planejava explodir'

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Richard McKinney
O veterano Richard McKinney não estava mais em combate fisicamente - mas, dentro da sua cabeça, estava em guerra com os muçulmanos

Richard McKinney é um muçulmano devoto e ora hoje na mesma mesquita que por dois anos planejou explodir.

Ele poderia ter sido autor de um dos piores massacres da história recente dos EUA: "a ideia era matar umas 200 pessoas", relembra.

Mas sua vida deu uma inesperada reviravolta.

Em entrevista ao jornalista Colm Flynn, para o programa de rádio Heart and Soul, da BBC, Richard conta que não só deixou para trás o ódio por muçulmanos, como também se converteu ao islamismo.

Veterano do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Richard McKinney voltou do combate no Afeganistão traumatizado com os horrores da guerra.

Em sua casa na pequena cidade de Muncie, no Estado americano de Indiana, ele recorda que passou maus momentos:

"Eu acordava pensando nisso, não conseguia evitar, provavelmente porque eu não estava bem. E quando eu ia para a cama à noite, geralmente ia dormir depois de ficar bêbado e chorar no sofá assistindo TV."

Ele também estava tomado por um ódio profundo em relação aos muçulmanos:

"Eu achava que essa era a única coisa que me mantinha vivo, o ódio que eu sentia", diz ele.

E esse sentimento foi crescendo a cada dia, a ponto dele insultar muçulmanos que encontrava pela rua.

"Quando eu ia fazer compras no Walmart, fazia questão de passar por eles e falar obscenidades."

Mulheres muçulmanas andando na rua
Richard não podia ver um muçulmano na rua que destilava seu ódio

Donna, esposa de Richard, conta que vivia numa tensão constante.

"Quando eu via alguém de hijab, tentava desviar nosso caminho de propósito."

"Eu tentava convencê-lo de que há coisas boas e ruins em todas as raças e religiões, em tudo", acrescenta.

O plano

Richard não estava mais em combate fisicamente. Mas, dentro da sua cabeça, estava em guerra com os muçulmanos.

Ele começou então a encomendar material para construir o que seria uma bomba caseira para explodir a mesquita da cidade.

O plano era colocar os explosivos durante a noite embaixo dos degraus que ficavam nos fundos da mesquita.

No dia seguinte, durante o culto, ele estacionaria o carro do outro lado da rua e detonaria os explosivos com o celular.

Ele planejava assistir à mesquita ir pelos ares, matando centenas de pessoas.

"Talvez 100 pessoas, talvez 200. Eu só queria matar o máximo possível. Quem quer que estivesse naquele prédio, eu planejava que ninguém sobrevivesse."

Homem rezando
O plano de Richard era detonar a bomba durante o culto matando centenas de pessoas

"Eu achava que seria um herói nacional. Mesmo sabendo que o que eu tinha planejado acabaria com minha própria morte", completa.

Foram dois anos com essa ideia na cabeça.

"Eu estava só esperando. Não estava com pressa."

Enquanto isso, Donna não tinha a menor ideia do que estava acontecendo:

"Foi meio desconcertante para mim (quando descobri) porque morávamos na mesma casa. Isso estava na cabeça dele e eu não tinha noção."

A reviravolta

Até que uma conversa com a filha Emily, com sete anos na época, levaria Richard a rever seus planos.

Ela tinha acabado de chegar da escola, e começou a contar ao pai sobre uma mulher muçulmana que tinha visto.

"Eu falei que tinha visto uma mulher de burca buscando o filho, e eu só conseguia ver os olhos dela. Eu não entendia por que ela estava usando aquilo. Nunca tinha visto ninguém de burca", lembra a jovem.

A reação do pai não foi das melhores - Richard aproveitou para destilar seu ódio em relação aos muçulmanos.

Mas o que ele não esperava era a reação da filha:

"Eu só meio que dei um olhar para ele, do tipo: 'você está maluco, o que você está falando? Está gritando por quê, (se) é apenas uma opção de roupa."

Aquela cena remeteu Richard imediatamente a um episódio da sua infância, quando o avô - extremamente racista - gritou com ele porque estava brincando com um menino negro da vizinhança.

"Ela estava olhando para mim da mesma forma que eu olhei para o meu avô. Tipo: você é a pessoa mais idiota que já conheci em toda a minha vida. Sério... como você age desse jeito?"

"Aquilo me fez refletir. Estou passando adiante preconceito. É assim que o preconceito começa a aparecer."

Foi um momento de clarividência.

"Eu disse: Quer saber? Vou dar a eles (muçulmanos) outra chance. Como se eu tivesse esse poder, mas eu sentia que tinha esse poder."

Foi assim que Richard visitou pela primeira vez o Centro Islâmico que planeja explodir.

Alcorão
'Quando comecei a ler, fui tocado pelo Alcorão', diz Richard

"Esse povo realmente merecia morrer?", ele pensou.

"Eu esperava estar certo. Estava com medo de estar errado. Porque isso arruinaria tudo."

Na ocasião da visita, ele recebeu um Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, para ler em casa.

"Quando comecei a ler, fui tocado pelo Alcorão."

"Na verdade, por dois versículos especificamente. Um deles diz que 'matar um ser humano é matar toda a humanidade'. E outro que fala: 'Salvar um ser humano é salvar toda a humanidade'."

Apenas oito semanas depois, ele se converteu ao islã. E, em poucos anos, se tornou presidente da mesquita que desejava destruir.

Hoje, ele se dedica a promover a paz e a compreensão, dando palestras sobre como vencer o ódio.

"A história dele me faz acreditar com mais força ainda no Senhor. Porque Deus disse que daria orientação", diz um dos membros do centro.

Mas nem todos compartilham deste sentimento. O Centro Islâmico perdeu alguns membros depois que o plano antigo de Richard veio a público: ele próprio o revelou em um jantar com a comunidade.

O fato é que a vida de Richard deu uma reviravolta. Ele não bebe mais e ora várias vezes ao dia.

Mas, logo no início, sua dedicação à religião era tamanha que foi motivo de tensão no casamento.

"No início, ele queria fazer tudo imediatamente. Era muito rígido com os horários de oração, o que aumentava o estresse, porque ele ficava muito agitado se a gente estivesse em algum lugar público, já que teria que encontrar um lugar para rezar. Era muito extremo", conta Donna.

"E para mim foi muito preocupante porque meu primeiro pensamento foi que ele esperaria que eu usasse hijab, me cobrisse. Eu não queria que ele pensasse que eu seria sua esposa muçulmana."

Mas essa fase não durou muito.

"Depois que ele percebeu que não era tudo ou nada, parece que ele conseguiu se estabelecer na sua crença e na sua fé."

"Isso o tornou menos irritado, menos raivoso, mais compreensivo com as outras pessoas. Mas às vezes ainda enfrentamos dificuldades, porque como seres humanos nós vamos (enfrentar)."

E o que esse novo Richard teria a dizer para as pessoas que carregam o mesmo ódio que ele sentia?

"Eu diria: Em primeiro lugar, gostaria de poder conversar com você. Mas respire fundo, seja um ser humano. Matar é errado."

Ouça aqui a íntegra (em inglês) do programa Heart and Soul da BBC.

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