'Eu queria que a polícia pedisse desculpa e dissesse que o meu filho não era bandido', diz pai de lutador morto em São Gonçalo

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O desabafo é do autônomo Vanelci Ferreira de Amorim, de 58 anos, na manhã desta quinta-feira, no local onde o seu filho, o lutador de boxe e muay thai, Vitor Reis de Amorim, foi morto em bar na tarde da última terça, aos 19 anos, no bairro Patronato, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio:

— Eu queria que a polícia pedisse desculpa (pelo que fizeram) e dissesse que o meu filho não era bandido. Por tudo que eu fizer eu não terei mais o meu filho aqui. Os policiais que fizeram isso passarão o Ano Novo, as festas, com os seus. Já eu, perdi o meu melhor bem.

— Eu não quero que o meu filho passe como bandido. Ele apenas estava com os amigos e eles entraram e fizeram isso. Eu não sou contra a polícia. Não sou contra a corporação. Sou contra eles fazerem esse tipo de coisa. Mataram o meu filho e deixaram agonizando — disse Valneci, na rua onde o filho mais velho foi morto, acrescentando que "se for possível, vai processar o Estado".

Uma testemunha que estava no local no momento em que a PM teria atirado disse que, por sorte, sua filha não foi atingida.

— Era por volta de 16h40m. O pessoal bebia na rua. Eu estava em casa com a minha filha e meus dois sobrinhos, de 9 e 6 anos, estavam em outra casa. Pedi a minha menina de 8 anos para ir lá buscá-los. Escutei um primeiro tiro e sai correndo para ver o que tinha acontecido. Quando entrei na rua eles derão outro tiro. Só os amigos estavam na rua. Não tinha bandido na rua. Por sorte a minha filha não foi atingida — relatou ele, sob condição de anonimato.

— Eles deram o tiro e impediram que a mãe dele o socorresse. Chamaram ela de todos os nomes possíveis e impossíveis. Quando eles deram o tiro, eles estavam em um carro descaracterizado. Só mais de 30 minutos depois que uma outra viatura caracterizada chegou, pegaram ele e jogaram de qualquer jeito na caçamba — completou.

A empregada doméstica Viviane dos Santos Reis, 48, mãe do jovem morto, está à base de remédios.

— Eles vieram aqui e falaram: 'Seu filho está lá com a polícia'. Eu peguei o documento dele, pois ele tinha saído para ir comprar algo no mercado, e segui para lá. Pensei: 'Vou dar um tapa nele porque ele tem que estar dentro de casa no momento que ele não está treinando'. Quando cheguei lá, perguntei do meu filho. Ele disse que tinha um suspeito baleado. Em seguida vi a cabecinha do meu filho. Entrei em desespero e comecei a pedir que eles socorressem ele. Me xingaram e disseram que era para eu fazer outro filho e que não era para eu deixar ele ficar na rua. Um tempo depois eles pegaram o meu filho como bicho e jogaram dentro da caçamba. Eu implorava para que eles (os PMs) deixarem eu ir. Mas, eles não deixaram eu ir — lembrou Viviane.

Na casa humilde da família, ainda há objetos do rapaz, como o celular, a luva de boxe e as várias medalhas que ele conquistou.

O professor de lutas marciais José Romildo de Lima contou que conhecera Vitor quando ele tinha 9 anos. Dois anos atrás, o jovem decidiu competir profissionalmente. Neste ano, Vitor fez 14 lutas e ganhou todas elas. Estava invicto na carreira, com cerca de 20 lutas.

De segunda a sábado, Vitor treinava por cerca de 8 horas. No fim do dia, ele trabalhava em um lava-a-jato e nos fins de semana, com entregas de alimentos.

— Ele chegou na escola de luta há cerca de 10 anos. (Veio) criancinha para projeto que eu tinha. Quando eu vi a foto antiga, eu nem reconheci. Mas só há dois anos ele veio para competir forte. A próxima luta seria no dia 30 de janeiro, em Araruama, para disputar o cinturão de muay thai — contou Lima, que lembrou a hora em que recebeu a notícia sobre a morte do aluno:

— Eu assistia TV e falava com a minha esposa que tinha acabado de fechar a luta dele. Meia hora depois eles me ligaram e falaram que ele tinha sido baleado. Eu não acreditei. Foi um choque, um baque violento. Infelizmente, aconteceu isso e estamos muito abalados.

Amigos do rapaz fizeram uma homenagem para ele, nesta quinta-feira, na academia em que ele lutava.

— O Vitor era guerreiro e ninguém iria parar ele. Um excelente aluno e tinha um sonho. Mas, aconteceu isso. Acabou o sonho dele e o meu. A prova de tudo está aí. Ele era um garoto bom, trabalhador, e tudo que falaram contra ele, mostramos que não era verdade. Estamos sofrendo por conta do que eles fizeram. Que acabe isso. Foi uma vida. Acabaram com a carreira de um menino de 19 anos. Eu peguei ele com 8 anos. Quem é do meio sabe — destacou o treinador.

A Polícia Civil apreendeu todas as armas dos policiais militares do 7° BPM (São Gonçalo) que patrulhavam o Patronato naquela tarde. De acordo com o boletim médico do rapaz, ele já chegou morto ao Pronto-socorro de São Gonçalo, no Centro da cidade, com um disparo no lado esquerdo do peito, sem nenhuma marca de saída. Além disso, os médicos identificaram marcas de escoriações no calcanhar esquerdo da vítima. O corpo de Amorim foi enterrado na tarde de quarta-feira.

O GPS da viatura usada pelos policiais no momento da ação terá que ser entregue aos investigadores para saber qual foi a rota utilizada por eles e o local exato onde Vitor foi morto.

A certidão de óbito do jovem diz que a causa da morte foi "ferida transfixante do tórax com lesão polivisceral e hemorragia interna, ação perfuro-contundente", ou seja, causada por uma arma de fogo. A informação foi revelada pelo "Bom dia Rio", da TV Globo, e confirmada pelo EXTRA.

Caberá à 73ª DP (Neves) investigar a guerra de versões entre a família e os militares. Os parentes do rapaz afirmam que os agentes chegaram disparando. A vítima tentou correr e foi alvejada. Segundo o pai do jovem, ele foi baleado nas costas. Por sua vez, a PM diz que os policiais foram atacados, revidaram e Vitor foi atingido no peito, de frente, durante um fogo cruzado com bandidos.

Apesar do boletim médico, a Civil vai aguardar o laudo de necropsia do rapaz para saber exatamente em qual área do corpo ele foi atingido. A Polícia Militar disse que a Corregedoria Interna da corporação vai investigar o caso.

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