'Eu tentei manter o aborto privado', diz atleta olímpica ouro no Rio e suspensa por cinco anos por faltar a teste antidoping

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NOVA YORK — O futuro de Brianna McNeal está incerto para a Olimpíada deste ano. A atleta foi medalhista de ouro nos 100 metros com barreiras nos Jogos do Rio, em 2016, e também garantiu a classificação para Tóquio pelo seu país, os Estados Unidos. Mas seu principal obstáculo neste momento é convencer a World Athletics, órgão máximo do Atletismo em nível mundial, de que não pôde atender a um teste antidoping surpresa porque se recuperava de um aborto realizado dois dias antes.

A situação veio a público nesta semana, depois de duas entrevistas concedidas por McNeal, de 29 anos. A atleta tenta reverter, na Justiça desportiva, uma suspensão de cinco anos aplicada no mês passado por “adulterar o processo de gerenciamento de resultados” de seu teste antidoping.

Sua acusação para a punição de cinco anos, inclusive, não foi por doping, mas pelos problemas relacionados à aplicação do teste em janeiro de 2020.

— Eu tentei manter o aborto privado, mas eles continuaram me puxando e puxando, querendo mais informações. Não pude acreditar que fui acusada de violação porque confundi as datas em apenas 24 horas. Não é como se o procedimento não tivesse acontecido — protestou McNeal.

Batidas à porta

O problema começou quando, no dia 12 de janeiro de 2020, um profissional bateu em sua porta para realizar o teste de verificação de drogas. O procedimento, muitas vezes feito de surpresa, é comum no meio esportivo de atletas de alto nível. Naquele dia, porém, não houve resposta de McNeal, nem pessoalmente nem pelo telefone.

Quando foi pedido que ela se explicasse, a atleta disse somente que havia se submetido a “um procedimento médico surpresa” que a deixou medicada e na cama, segundo o jornal The New York Times. Sua intenção era proteger sua privacidade. Com a resposta, ela também anexou um atestado médico da clínica onde havia realizado o aborto, sem a identificação do procedimento.

Banida por 5 anos

Mas houve um problema: quando a nota médica chegou até ela, cerca de um mês após o aborto, McNeal pensou que a clínica havia errado a data. Por isso, ela decidiu alterar o documento de 10 de janeiro para 11 janeiro. O erro, porém, estava em uma confusão dela, não da clínica. A mudança, notada pela Athletics Integrity Unit, que avaliava a situação, foi verificada. Foi aí que a entidade percebeu o erro da atleta e entendeu qual havia sido o procedimento médico realizado.

Ainda assim, porém, a investigação avançou e Brianna McNeal recebeu, neste mês de junho, sua suspensão de cinco anos do atletismo. O argumento da World Athletics foi de que ela deveria ter a certeza da data, sem alterar o documento de forma errada. Para a entidade, a atleta não poderia estar tão traumatizada para se confundir, já que seguiu postando nas redes sociais e competiu nas semanas seguintes ao aborto.

Fragilizada por tornar público seu procedimento, ela tem encontrado resistência das autoridades e aguarda agora uma decisão do Tribunal Arbitral do Esporte da Suíça, que examina seu caso, de acordo com o NYT. Se os argumentos de sua defesa forem negados, McNeal não poderá competir nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

— No momento, me sinto excomungada do esporte em si e estigmatizada, e para mim isso é injusto — disse a atleta ao The New York Times.

— Eu simplesmente não acredito que isso justifique uma suspensão, muito menos uma suspensão de cinco anos, apenas por um detalhe técnico, um erro honesto durante um momento muito emocional.

Sentimento de culpa

Ainda segundo a atleta, que é cristã, a decisão de abortar foi tomada para que ela pudesse competir na Olimpíada que seria realizada no ano passado. O procedimento foi realizado no dia 10 de janeiro e os Jogos teriam início em meados de julho do ano passado. Com o adiamento do evento para este ano, porém, McNeal afirma que a culpa que ela já carregava, baseada em seus valores religiosos, cresceu ainda mais. Com a mudança de data, daria tempo de ela competir mesmo depois da gravidez.

Brianna McNeal já havia recebido punição similar há quatro anos por faltar a três exames antidoping em um período de 12 meses, diz a reportagem. Naquelas ocasiões, ela se justificou dizendo que havia esquecido de atualizar sua localização no sistema de rastreamento da entidade antidoping e, na terceira vez, errou ao inserir o horário em que poderia ser testada. Desta vez, porém, ela decidiu vir a público porque queria mostrar que “não está se dopando e nunca dopará".

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