EUA e China medem forças no Alasca no primeiro embate da era Biden

Frederic J. Brown con Francesco Fontemaggi en Washington
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As duas potências haviam prometido não poupar palavras e a promessa foi cumprida: Estados Unidos e China expuseram nesta quinta-feira (18) suas diferenças irreconciliáveis, em meio a uma troca de acusações durante o primeiro encontro cara a cara entre os países desde a posse de Joe Biden.

As maiores autoridades diplomáticas dos dois países se reuniram para debater diversos temas e as diferenças entre os lados voltaram a ficar evidentes.

"Discutiremos nossas preocupações profundas com as ações da China, incluindo Xinjiang (onde Washington acusa Pequim de 'genocídio' contra os muçulmanos uigures), Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica contra nossos aliados", afirmou ao chegar ao encontro o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken.

Diante da maior autoridade diplomática do Partido Comunista Chinês, Yang Jiechi, e do ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, Blinken afirmou que "cada um destes atos ameaça a ordem baseada em regras que garantem a estabilidade global".

"É por isso que não se trata apenas de assuntos internos e sentimos a obrigação de falar disso", completou.

A postura chinesa foi igualmente incisiva. "A China se opõe firmemente à ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos chineses e tomaremos medidas firmes em resposta", declarou Jiechi.

"O que precisamos fazer é abandonar essa mentalidade da Guerra Fria", completou.

Ao seu lado, o chanceler chinês Wang Yi denunciou as últimas sanções norte-americanas, anunciadas na véspera da reunião, contra o enfraquecimento da autonomia de Hong Kong. "Não é assim que se recebe convidados", protestou.

O Ministério das Relações Exteriores chinês alertou que “a China não fará concessões em questões relacionadas à sua soberania, segurança e interesses”.

As relações entre Washington e Pequim continuam controversas depois de piorarem sob a presidência de Donald Trump. O conflito atingiu todos os níveis: comércio, defesa, tecnologia e até mesmo Hong Kong.

Essas questões são o foco das tensões atuais, juntamente com outras, como os direitos humanos, o tratamento reservado à minoria muçulmana de uigures em Xinjiang e a espionagem.

O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, observou: "Não buscamos conflito, mas aceitamos uma competição acirrada".

- Acusações cruzadas -

A cidade de Anchorage, no Alasca, foi considerada um ponto de encontro mais neutro do que Washington ou Pequim para a cúpula de três sessões que vai até sexta-feira.

Mas as expectativas de ambas as partes são limitadas.

Biden manteve uma linha dura com a China, e Blinken disse que esse é o "maior teste geopolítico dos EUA no século 21".

Ainda assim, a equipe do novo presidente afirmou que quer se engajar diplomaticamente no cenário mundial, uma virada em relação ao isolacionismo de Trump. Em particular, em assuntos como as mudanças climáticas, a pandemia e a não proliferação de armas, nos quais Washington havia se distanciado de seus aliados.

Jiechi criticou os Estados Unidos por quererem "impor sua própria democracia ao resto do mundo", ao que Blinken respondeu: "O que eu ouço é muito diferente do que você descreve."

"Ouço um profunda satisfação com o retorno dos Estados Unidos ao lado de nossos aliados e parceiros, mas também ouço profundas preocupações sobre certas ações de seu governo", acrescentou.

Por outro lado, um alto funcionário dos EUA criticou Pequim por ter chegado à cúpula "com ares de megalomania, focando no teatro público e no drama, em vez da substância".

Já a China criticou os Estados Unidos por manter uma "diplomacia de megafone" com a China, depois de Washington dizer que pretendia mostrar sua firmeza em relação a Pequim após realizar uma rodada de reconstrução de alianças na Ásia.

- Baixas expectativas -

As expectativas em relação a uma aproximação são baixas. Para Bonnie Glaser, diretora do Projeto de Energia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da China, as negociações teriam impacto limitado.

“Eles vão analisar se há pontos em comum em algumas questões e se há formas de administrar e até reduzir suas diferenças”, explicou à AFP. "As expectativas continuarão baixas. Um restabelecimento da relação não está à vista."

A última reunião entre as duas potências, em junho, não fez nada para descongelar a relação.

A reunião de quinta-feira segue uma visita de Blinken ao Japão e à Coreia do Sul, dois aliados-chave na região da Ásia e o Pacífico. Em Tóquio, Blinken advertiu a China contra o uso de "coerção e comportamento desestabilizador".

O chefe da diplomacia e o secretário de Defesa, Lloyd Austin, também participaram de uma importante cúpula entre os líderes da chamada aliança Quad, que reúne Estados Unidos, Austrália, Japão e Índia, como um freio às ambições da China.

Blinken e seus pares criticaram a China em várias questões, incluindo a erosão da autonomia de Hong Kong, as tensões com Taiwan e o Tibete, o tratamento da população uigur em Xinjiang, as reivindicações de Pequim sobre o Mar da China Meridional, o roubo de propriedade intelectual e uma suposta opacidade sobre as origens da pandemia.

Elizabeth Economy, principal pesquisadora da Instituição Hoover da Universidade de Stanford, avaliou que, ainda que o governo Biden tenha se afastado da retórica inflamada de Trump, as relações bilaterais permanecem tensas.

"Pequim não vai recuar com relação a Xinjiang ou Hong Kong; essas são questões de soberania", afirmou ela à AFP.

"É difícil ver a China mudar de rumo em qualquer tema de importância para os Estados Unidos. Estamos em uma posição em que nossos valores centrais e nossa visão de mundo futuro estão fundamentalmente em desacordo", apontou.

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