EUA: aliados europeus da Otan devem aumentar gastos com defesa

Por Nicolas REVISE, Alix RIJCKAERT
Tillerson participa de uma entrevista coletiva na sede da Otan, em Bruxelas

Em sua primeira reunião na Otan, o chefe da diplomacia americana, Rex Tillerson, exigiu nesta sexta-feira que seus aliados europeus aumentem os gastos em termos de defesa, a fim de preservar os laços transatlânticos, e denunciou a "agressão" russa na Ucrânia e no leste europeu.

Os países europeus da Organização do Atlântico Norte estavam temerosos quanto ao futuro da segurança na aliança desde a chegada ao poder de Donald Trump, percebido como um isolacionista.

Os Estados Unidos, primeira potência militar mundial - com um orçamento anual que o presidente americano quer elevar em 2018 a 639 bilhões de dólares - asseguram 68% das despesas de defesa da Otan.

Há anos, mesmo antes da chegada à Casa Branca do republicano, Washington reclama de um "desequilíbrio na divisão do fardo" com seus aliados europeus.

Após seu antecessor democrata Barack Obama, Donald Trump exige que todos os países da Aliança apliquem ao menos 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para a defesa.

Os europeus se comprometeram a cumprir esse objetivo em dez anos durante a cúpula da Otan no País de Gales em 2014. Até a data, apenas cinco conseguiram atingir a meta.

"Os aliados que não têm programas concretos para gastar 2% do PIB em termos de defesa até 2024 devem implementar isso agora. Quem tem um programa para alcançar 2% deve acelerar seus esforços e obter resultados", insistiu Tillerson ante seus 27 colegas dos demais países membros da Aliança Atlântica reunidos em sua sede de Bruxelas.

Em sua intervenção, o secretário de Estado americano pediu que os dirigentes da Aliança aprovem este objetivo durante sua cúpula de 25 de maio com o presidente Donald Trump em Bruxelas.

"É necessário que antes do fim do ano todos os aliados cumpram com seus compromissos ou coloquem em andamento programas que demonstrem claramente" como obtê-los, afirmou Tillerson.

Porque, ele alertou, "os Estados Unidos não vão poder manter uma participação desproporcional em termos de despesas em defesa da Otan". Para Washington, os gastos representam 3,6% de seu PIB.

Meta irrealista

Sem grandes detalhes, Rex Tillerson advertiu que "a capacidade da Aliança para a segurança da comunidade transatlântica depende disso".

Seu colega britânico Boris Johnson, cujo país - parceiro dos Estados Unidos - já atingiu os 2%, pediu uma Otan "adequadamente financiada".

No entanto, o ministro alemão Sigmar Gabriel protestou contra um objetivo "irrealista". Quando Donald Trump recebeu em meados de março a chanceler Angela Merkel, acusou Berlim de dever "enormes quantias de dinheiro" para a Otan e Washington.

A Alemanha negou secamente.

Por sua parte, o francês Jean-Marc Ayrault alertou contra a tentação "de fazer despesas por fazer despesas".

Esta é também a opinião do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, que recordou que os gastos da defesa europeia subiu 3,8% em 2016. O norueguês defendeu uma Aliança tão "vital" para a América quanto para a Europa e prometeu que "o elo transatlântico continua forte".

O objetivo do encontro é preparar a cúpula da Otan de 25 de maio em Bruxelas, a primeira para Trump, que se reunirá com os aliados, que estão preocupados por suas declarações sobre um "maravilhoso" Brexit e uma Otan que classificou de "obsoleta".

Rex Tillerson assegurou que "o presidente e o Congresso dos Estados Unidos apoiam a Otan", como tem sido o caso desde a sua criação em 1949 no início da Guerra Fria.

Rússia perplexa

A administração Trump, que deseja uma aproximação com o presidente russo Vladimir Putin, mostrou-se tão firme quanto a equipe de Obama contra Moscou. Neste sentido, Rex Tillerson reclamou uma "resposta à agressão da Rússia na Ucrânia e em outras partes" no leste europeu.

Essas declarações deixaram a Rússia "perplexa", segundo reagiu o ministério das Relações Exteriores russo.

"Manter a unidade" dentro da Otan "não é fácil" e "os ministros da Otan continuam com o mesmo espírito: o mito da 'ameaça russa', a calúnia da 'agressão russa', discursos sem fim sobre a necessidade de enfrentar juntos" um inimigo comum, afirmou a chancelaria russa.

O ministério russo lamentou ainda que "este tipo de julgamento tenha sido feito no dia seguinte a um Conselho entre a Rússia e a Otan, que aconteceu em um ambiente construtivo".

"Em várias ocasiões, a Otan colocou seu dogma ideológico acima dos esforços reais sobre problemas mundiais", a solução para esta questão: "mudar radicalmente a natureza desta aliança", concluiu a chancelaria russa.