EUA confiam no sistema eleitoral do Brasil, diz porta-voz do Departamento de Estado

Pessoa lacrando urna eletrônica
Diplomata não pode prever quando o governo americano reconhecerá resultado das eleições, mas afirmou que 'vontade do povo' deve ser respeitada

A pouco mais de uma semana da realização do primeiro turno das eleições brasileiras, o porta-voz para língua portuguesa do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Christopher Johnson, disse, em entrevista à BBC News Brasil, que o governo americano confia no sistema eleitoral brasileiro. "Nós confiamos, sim", disse o diplomata.

A declaração de Johnson acontece após o presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), vir colocando em xeque a segurança e a lisura do sistema eleitoral brasileiro.

Durante a maior parte do seu mandato e da corrida eleitoral, Bolsonaro levantou dúvidas, sem apresentar evidências, de que a urna eletrônica não seria à prova de fraudes.

Johnson, que atuou como diplomata no Brasil, Paraguai e Haiti, também disse que o governo norte-americano ainda não sabe em que momento irá anunciar o seu reconhecimento ao resultado das eleições brasileiras, mas afirmou que a posição do seu país é de que "a vontade do povo brasileiro seja respeitada".

Sobre o cenário internacional, Johnson diz que o Brasil é "bom candidato" para membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Atualmente, há apenas cinco membros permanentes no conselho (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia) e outros 10 não-permanentes com mandatos rotativos, entre eles o Brasil.

Nesta semana, porém, o presidente norte-americano Joe Biden, disse, na Assembleia Geral da ONU, ser favorável ao aumento no número de assentos permanentes e não-permanentes do conselho, uma pauta histórica da diplomacia brasileira.

Johnson também falou sobre o conflito na Ucrânia e a posição brasileira em relação à Rússia, que, nesta semana, anunciou a mobilização de 300 mil militares e não descartou o uso de armas nucleares.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - Autoridades brasileiras, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, têm mantido encontros frequentes com autoridades russas, inclusive após a invasão russa sobre a Ucrânia. Nesta semana, o chanceler brasileiro, Carlos França, e o chanceler russo, Serguei Lavrov voltaram a se encontrar. Que sinais esses encontros enviam no contexto em que a Rússia ameaça intensificar o conflito?

Christopher Johnson - A nossa prioridade é chegar ao ponto de terminar o conflito na Ucrânia. Tem parceiros mais alinhados com a nossa postura, mas dialogamos para encontrar os meios para chegarmos a esse fim. Nem sempre estamos de acordo sobre quais ferramentas devemos usar, mas eu acho que o ponto que todos temos em comum é a soberania e a independência de cada país.

Como nossa representante na ONU (Linda Thomas-Greenfield) falou, os Estados Unidos não pretendem dominar os outros países. Entendemos que, às vezes, não vamos estar de acordo 100%, mas temos outros desafios que pretendemos enfrentar juntos e vamos continuar tentando convencer os outros parceiros e nos ajudar a assegurar a paz na Ucrânia.

Christopher Johnson
'Nossa prioridade é chegar ao ponto de terminar o conflito na Ucrânia', diz porta-voz do Departamento de Estado dos EUA

BBC News Brasil - Você disse que há países mais alinhados e outros menos. Em que grupo o Brasil está?

Christopher Johnson - Tem outros países que não fizeram esse tipo de encontro, né? Acho que teria que investigar quais são as posturas do Brasil a respeito das sanções etc. Eu diria que os líderes europeus são mais alinhados conosco.

BBC News Brasil - Recentemente, o Brasil se absteve em uma votação sobre a participação do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, na Assembleia Geral da ONU. Como os EUA avaliam a decisão do Brasil de abstenção em um momento tão crítico?

Christopher Johnson - Como falei, seria importante respeitar a independência e soberania de todos os países. Nós preferiríamos que a maioria dos Estados estivessem de acordo [...] Mas todos os países têm esse direito a abstenção e vamos continuar vendo as opções para continuar a trabalhar juntos.

BBC News Brasil - O Brasil tem evitado se posicionar contra a Rússia desde a invasão russa à Crimeia, em 2014. Mais recentemente, o Brasil foi contra a imposição de sanções após a nova invasão russa à Ucrânia. Considerando o anúncio do presidente Vladimir Putin de uma mobilização de 300 mil militares, o senhor avalia que o Brasil errou?

Christopher Johnson - Acho que seria uma posição para o povo brasileiro decidir. O presidente Bolsonaro foi eleito pelo povo brasileiro. Nós continuaremos a falar com nossos parceiros no Brasil pra ver como vamos trabalhar nesses e outros temas.

BBC News Brasil - Tanto a Rússia quanto a China fazem movimentos pra ampliar sua influência na América Latina, que durante muito tempo, foi considerada uma zona de influência dos Estados Unidos. O que teria levado os Estados Unidos a negligenciarem a região?

Christopher Johnson - Os Estados Unidos sempre foram abertos para trabalhar com os parceiros na região. Temos cultura e histórias compartilhadas. No meu caso, eu sou descendente de imigrantes da região e esses laços são muito fortes. Com relação à influência de outros países da região, pretendemos informar os nossos parceiros sobre quais os custos de se relacionar com os outros países.

Temos visto que, algumas vezes, esses países que fazem acordos com a China acabam percebendo que os custos foram mais altos do que o que eles achavam que seriam. Mas como falou o nosso Secretário de Estado, Anthony Blinken, não cabe a nós dizemos com quem esses países irão fazer parcerias.

BBC News Brasil - Se de um lado tem Rússia e China fazem esse movimento, do outro tem os países da região abertos à chegada desses países. Se há compartilhamento de valores, porque eles estariam tão abertos a essa aproximação?

Christopher Johnson - Seria difícil pra eu falar sobre quais os motivos que esses países teriam. Mas posso falar de nós. Nós continuamos tendo relação com a China. É um importante parceiro comercial dos Estados Unidos mesmo quando há problemas em nossas relações. Então imagino que haja um cálculo, também, dos outros países.

BBC News Brasil - É possível os Estados Unidos retomarem essa posição de liderança na região em um contexto em que a China, por exemplo, já é o maior parceiro comercial de parte dos países da região?

Christopher Johnson - Eu acho que sim. Os Estados Unidos continua sendo um líder, mas também temos uma visão mais aberta de liderança. Como o presidente Joe Biden disse no seu discurso, estamos abertos a reformar o Conselho de Segurança, os assentos permanentes e não-permanentes, para integrar mais membros, especialmente os da região.

BBC News Brasil - O presidente Biden disse que é favorável a essa reformulação (do Conselho de Segurança da ONU) e essa é uma pauta histórica do Brasil. Hoje, o Brasil teria o apoio dos Estados Unidos para fazer parte do Conselho de Segurança da ONU como membro permanente?

Christopher Johnson - Para nós, acho que é evidente que o Brasil seria um bom candidato. Para selecionar os países que vão formar parte (como membros permanentes do conselho), eu imagino que seria um processo de diálogo, mas evidentemente estaríamos abertos à candidatura do Brasil.

BBC News Brasil - O Brasil teria o apoio dos Estados Unidos para fazer parte do conselho de forma permanente?

Christopher Johnson - Para respeitar o processo diplomático, eu não quero já nomear quais serão os países membros desse conselho. Mas, como falei, o Brasil seria um bom candidato. Eu acho que os méritos são evidentes.

BBC News Brasil - Teremos eleições em pouco mais de uma semana. O atual presidente brasileiro coloca em xeque a segurança das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral. Os Estados Unidos confiam no sistema eleitoral brasileiro?

Christopher Johnson - As instituições democráticas são importantes para o povo norte americano e para o povo brasileiro. Vamos continuar trabalhando em conjunto para reforçar essas instituições e estamos atentos a esse processo eleitoral no Brasil.

BBC News Brasil - Mas vocês confiam no sistema eleitoral brasileiro ou não?

Christopher Johnson - Nós confiamos, sim.

BBC News Brasil - Há um movimento para que potências ocidentais façam o reconhecimento do resultado das eleições assim que o Tribunal Superior Eleitoral anuncie os números. Isso seria uma forma de algum tipo de manobra contestatória dos resultados. Em que momento os Estados Unidos irão reconhecer o resultado das eleições brasileiras? Será logo após o anúncio do TSE?

Christopher Johnson - Como em qualquer qualquer processo eleitoral no mundo, o mais importante é a voz do povo. Então, estaremos atento a esses resultados. Não posso prever qual seria a postura (do governo norte-americano) porque o mais importante é o que decidiu o povo brasileiro. Então, não tendo os detalhes específicos, não posso dizer qual seria a nossa postura. Mas o que pretendemos é que o povo brasileiro e a vontade do povo brasileiro sejam respeitados.

BBC News Brasil - O ex-presidente Lula já deu a entender que Zelensky seria tão culpado pela guerra na Ucrânia quanto Putin. Que tipo de relação vocês esperam com um eventual governo do PT em relação a essa questão russa?

Christopher Johnson - Então acho que não seria apropriado falar de um governo e de um candidato antes das eleições. No momento, continuamos dialogando com vários membros do ambiente brasileiro. Então, claro, continuamos dialogando com o presidente Bolsonaro, com outros partidos políticos e com a sociedade civil brasileira. Mas não posso falar de um governo que não existe.

- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62975715

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