EUA encerra mais de uma década de bonança com crise do coronavírus

Por Ariela NAVARRO
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Foto de 24 de março de 2020 mostra restaurante fechado pelo novo coronavírus, em Detroit, Michigan

O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos registrou contração de 4,8% no primeiro trimestre, a queda mais expressiva desde a Grande Recessão da década passada e o pior ainda está por vir quando forem publicadas as cifras dos meses de confinamento, segundo as primeiras estimativas anualizadas publicadas pelo Departamento do Comércio.

O presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powell, advertiu que no segundo trimestre em curso - quando mais foram aplicadas as medidas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus -, a atividade econômica pode encolher em um nível "sem precedentes".

A medição utilizada nos Estados Unidos compara um trimestre com o precedente e faz uma projeção sobre a evolução no ano, se o ritmo de crescimento for mantido.

Neste primeiro trimestre, o dano pela COVID-19 ficou restrito principalmente ao fim de março, mas mesmo assim as cifras mostram um impacto brutal, uma situação que a economia americana não tinha experimentado desde o quarto trimestre de 2008, em plena crise financeira e hipotecária.

O Departamento do Comércio advertiu que "nem todos os efeitos econômicos da pandemia de COVID-19 podem ser quantificados na estimativa do PIB para o primeiro trimestre de 2020".

A contração aguda reflete a paralisação das atividades nas últimas duas semanas de março, quando milhões de americanos perderam seus empregos em consequência das medidas para tentar conter o vírus.

- "Não é o momento" de pensar no déficit -

O presidente do Fed advertiu que tanto "a profundidade quanto a duração da instabilidade econômica são extraordinariamente incertos e vão depender, em grande medida, do quão rápido se consiga controlar o vírus".

Os Estados Unidos são o país com mais mortos pela doença respiratória, com mais de 58.000 óbitos pelo novo coronavírus.

Neste contexto, o Fed decidiu depois de uma reunião de dois dias, na terça e na quarta-feira, manter em um nível entre zero e 0,25% sua taxa de referência.

Powell destacou que "a economia americana pode precisar de mais apoio" e afirmou que agora "não é o momento" de se preocupar com o déficit fiscal.

O Departamento do Comércio explicou que "a queda do PIB no primeiro trimestre foi, em parte, devido à resposta para frear a COVID-19".

No comunicado, explicou que "isto levou a mudanças bruscas na demanda, à medida que empresas e escolas mudaram ao modo de funcionamento remoto ou cancelaram operações e os consumidores cancelaram ou restringiram suas despesas".

"A recessão global pelo coronavírus atingiu a economia americana com uma força tremenda, terminando com dez anos de crescimento sustentado", informou a Oxford Economics em nota.

- "A ventania antes do furacão" -

Estes dados mostram um duro golpe com relação ao último trimestre de 2019, quando a economia cresceu 2,1% e os analistas estavam mais concentrados nos possíveis efeitos das políticas comerciais de Donald Trump.

O assessor econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, tinha advertido em declarações à CNN que provavelmente estes dados do primeiro trimestre seriam "a ponta do iceberg".

No primeiro trimestre, o consumo caiu 7,6%, informou o Departamento do Comércio, que explicou que diversos setores foram afetados.

A radiografia deste período também mostra que as pessoas viajaram menos e as importações caíram.

Os analistas projetam um impacto mais profundo no segundo trimestre, com uma contração que pode chegar a dois dígitos, mostrando os efeitos das semanas mais duras do confinamento.

"Estes dados mostram apenas a ventania antes do furacão no segundo trimestre", destacou Ian Shepherdson, da empresa Pantheon Macroeonomics.

O Departamento do Comércio indicou que um segundo informe preliminar com dados mais completos será publicado em 28 de maio.