EUA, Europa, Reino Unido e Canadá elevam sanções para 'secar' e 'espremer' Belarus

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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - União Europeia, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá fizeram anúncios coordenados de novas sanções contra a ditadura da Belarus, para aumentar a pressão contra "práticas repressivas do presidente Aleksandr Lukachenko contra seu próprio povo".

"Queremos fazer o regime de Lukachenko secar financeiramente ", escreveu em rede social o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, após o anúncio da União Europeia, que tem o mais extenso pacote de restrições contra a Belarus.

Os chanceleres dos 27 países do bloco adicionaram 78 pessoas e 8 entidades à lista de sujeitos a restrições, em represália contra o sequestro de um avião comercial e a prisão do jornalista Roman Protassevich e sua namorada Sofia Sapega, no final de maio.

Com essa quarta rodada de sanções, a pressão já é a mais ampla imposta a um país do bloco oriental, segundo o analista Ben Aris, especializado em nações pós-soviéticas. Pela primeira vez, as medidas da UE visam também sete setores econômicos muito relevantes para a economia do país pós-soviético, como potássio (usado em fertilizantes) e produtos de petróleo.

As exportações de potássio representam um quinto da receita orçamentária da Belarus e derivados de petróleo refinados, outro terço do PIB do país. "As vendas podem ser redirecionadas para a Ásia e a Rússia, evitando um colapso da economia, mas as sanções ainda prejudicarão Lukachenko e aumentarão sua dependência de Moscou", afirmou.

A estratégia por trás das sanções, segundo ele, é aumentar o custo do apoio russo a ponto de o presidente Vladimir Putin desistir de dar retaguarda ao ditador da Belarus. A estimativa é que a Rússia gaste por ano entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões (entre R$ 10 bi e R$ 15 bi) com empréstimos subsidiados e alívios de dívida, valor que pode subir a de US$ 6 bilhões a US$ 10 bilhões (de R$ 30 bi a R$ 50 bi) com as sanções.

"Isso vai doer. Isso vai prejudicar gravemente a economia da Belarus", disse o responsável por política externa da UE, Josep Borrell. As medidas ainda precisam do aval dos líderes dos países, em reunião entre quinta e sexta desta semana.

Também será afetado o setor financeiro: bancos da UE serão proibidos de dar empréstimos ou investir no país. Alexander Schallenberg, ministro das Relações Exteriores da Áustria --um dos principais fornecedores de serviços financeiros à Belarus--, afirmou que o objetivo é atingir o Estado, mas não os habitantes. "Temos que apertar os 'anjinhos' ['thumbscrews', instrumentos de tortura que apertavam os polegares de interrogados] após essa ação cruel de pirataria aérea estatal", disse ao Guardian.

Svetlana Tikhanovskaia, que liderou a frente de oposição contra Lukachenko nas eleições presidenciais do ano passado, se encontrou com os ministros antes da reunião e pediu que a UE intensifique sanções para pressionar a ditadura a soltar os mais de 500 presos políticos do país. Entre eles está o marido de Svetlana, Serguei Tikhanovski, detido em maio do ano passado quando lançava sua candidatura a presidente.

O mais popular opositor de Lukachenko, o executivo Viktor Babariko, também está preso desde antes das eleições presidenciais. "As sanções não são uma solução rápida, mas podem ajudar a acabar com a violência e a libertar as pessoas", afirmou Tikhanovskaia em rede social.

A UE já impôs três rodadas de sanções, chegando a um total de 155 indivíduos, incluindo Lukachenko e seu filho, e 15 entidades, que tiveram viagens proibidas e bens congelados. As medidas são consideradas simbólicas, porque a elite do país tem poucos ativos no bloco europeu.

Após a interceptação do voo da Ryanair por um caça militar e seu desvio para o aeroporto de Minsk, a UE e o Reino Unido proibiram o sobrevoo da Belarus por suas companhias aéreas e fechou os aeroportos do bloco a aviões belarussos.

Nesta segunda, o governo britânico anunciou proibições de viagens e congelamento de ativos contra "funcionários de alto escalão" no regime de Lukachenko e sanções contra a empresa petrolífera BNK Ltd. "O Reino Unido não tolerará a vinda dos que reprimem os direitos humanos, nem que eles usem nossas instituições financeiras", disse o Ministério das Relações Exteriores, em comunicado.

Os EUA, que já tinham imposto barreiras a empresas estatais belarussas em maio, após o sequestro do avião, congelaram todos os ativos e bloquearam transações financeiras com 5 entidades e 16 indivíduos, entre os quais a secretária de imprensa de Lukachenko, Natallia Mikalaeuna Eismant.

O Departamento de Estado também proibiu a entrada nos EUA de 46 integrantes da ditadura belarussa.

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ENTENDA O CASO

O que acontece na Belarus?

Desde agosto de 2020, manifestantes protestam contra eleição considerada fraudada, na avaliação de entidades internacionais, e pedem a saída do ditador Aleksandr Lukachenko

Quem é Lukachenko?

Ex-administrador de uma fazenda coletiva durante a antiga União Soviética, ele venceu a primeira eleição presidencial no país, em 1994 ---a única considerada livre e justa. Desde então, concentrou poder, reprimiu a oposição e se reelegeu nos pleitos seguintes

O que mudou no ano passado?

A candidatura de Svetlana Tikhanovskaia, à frente de outros grupos de oposição cujos candidatos foram presos ou exilados, atraiu forte apoio no país, levando à percepção de que, pela primeira vez, adversários de Lukachenko teriam chance nas urnas. Mas observadores foram impedidos de acompanhar a votação e a ditadura divulgou que o presidente obtivera 80% dos votos, desencadeando revolta e protestos.

Por que a UE lançou nova rodada de sanções?

No final de maio, Lukachenko ordenou a interceptação de um voo da Ryanair que ia da Grécia à Lituânia e tinha a bordo um adversário de seu regime, o blogueiro Roman Protassevich, 26, que foi preso ao desembarcar em Minsk e está sendo processado por três crimes. O ato foi considerado um atentado à segurança da aviação civil e aos direitos humanos.

Se outras três levas de sanções não funcionaram, por que esta funcionaria?

As primeiras rodadas proibiram viagens e congelaram ativos de indivíduos e instituições envolvidos com a repressão violenta a manifestantes pacíficos, mas foram consideradas simbólicas, já que a elite da Belarus têm poucos investimentos no bloco europeu.

Agora, pela primeira vez serão afetados setores economicamente relevantes para o regime, como armas, tabaco, produtos de petróleo e potássio, responsável por parte considerável da receita belarussa. A estratégia é elevar o custo da ajuda russa, para que o governo de Vladimir Putin deixe de sustentar Lukachenko.

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