Putin se aproxima do que pode ser seu último mandato

Arturo Escarda.

Moscou, 16 mar (EFE).- O líder russo Vladimir Putin está no poder há 18 anos, tem a vitória praticamente selada nas eleições presidenciais deste domingo e, após deixar claro que manterá nos próximos seis anos o mesmo rumo para seu país, a única pergunta é se esse mandato será o último.

"Nunca reformei a Constituição, e menos ainda em meu próprio benefício. E, hoje, continuo sem ter esses planos", disse Putin em entrevista no fim de semana passado.

Apesar de Putin insistir que não pensa em reformar a Constituição, que proíbe mais de dois mandatos consecutivos, alguns especialistas consideram que as elites política e econômica o pressionarão para que siga no governo depois de 2024, a fim de garantir a sobrevivência do sistema que criou.

As pesquisas não deixam sombra de dúvida: depois de 18 anos no poder, o chefe do Kremlin receberá entre 60% e 70% dos votos nas urnas, nas quais enfrenta sete candidatos que não têm possibilidades reais de ameaçá-lo.

O pleito foi convocado para 18 de março, coincidindo com o quarto aniversário da anexação da Crimeia, um acontecimento que continuará marcando a política externa da Rússia como poucos enquanto Putin permanecer no comando do país.

Apesar de todas as sanções internacionais, o presidente russo voltou a deixar claro no fim de semana passado que jamais reverterá sua decisão de anexar a península ucraniana.

"Vocês estão ficando loucos? Não há, nem haverá jamais qualquer circunstância" pela qual a Crimeia poderia voltar a ser da Ucrânia, disse Putin em um documentário divulgado na popular rede social russa OK.

O recente discurso sobre o estado da nação - onde apresentou com estardalhaço uma nova geração de armas nucleares e se dirigiu em tom ameaçador aos Estados Unidos e à Otan - confirma que a política externa do Kremlin não vai mudar.

Além disso, para provar que o anúncio não foi um blefe a poucos dias para as eleições, a Rússia revelou o teste do novo míssil hipersônico "Kinzhal", capaz de enganar o escudo antimísseis dos Estados Unidos.

A política do presidente também continuará alimentando o conflito no leste da Ucrânia e apoiando as forças populistas nos países do Ocidente, que alimentam as acusações sobre sua suposta interferência em processos eleitorais, e, como consequência, as sanções econômicas que atrapalham qualquer tentativa de reerguer a Rússia.

O chefe do Kremlin quase não fez campanha, pois sua vitória eleitoral já é dada como garantida: as últimas pesquisas apontam que ele receberá quase 70% dos votos, segundo as últimas informações publicadas pelo Centro de Estudos da Opinião Pública da Rússia (VTSIOM).

Putin não quis participar de debates televisionados com outros candidatos, e o "showmício" de 3 de março no estádio Luzhniki, em Moscou, no qual compareceram mais de 100 mil pessoas, foi seu único grande ato de campanha, mas o presidente também buscou garantir o voto em fábricas e empresas em diversas cidades do país.

Além disso, todo o esforço da engrenagem propagandística do Kremlin está voltado para garantir uma alta participação que legitime as eleições, sem contestação.

Todos os canais de televisão da Rússia, públicos e privados, bombardeiam os espectadores com anúncios elaborados que chamam a população para votar, com a mensagem de que isso é fundamental para garantir o futuro do país.

Quanto ao programa eleitoral, uma "Rússia forte" é a principal promessa de Putin, em um país onde a esmagadora maioria está resignada a sofrer com a pobreza, a apertar cada vez mais o cinto para acreditar que sua pátria é respeitada e temida no exterior.

Em seu polêmico discurso diante das duas casas do Parlamento, que foi na realidade o anúncio de seu programa eleitoral, Putin reconheceu que a Rússia é um país "atrasado", com 30 milhões de pobres e que sofre um "atraso tecnológico", o que pode ser "fatal" para o seu futuro.

Por isso, Putin promete "vitórias brilhantes" a seu povo, que incluem reduzir o número de pobres pela metade e superar o atraso tecnológico ao longo de seu novo mandato de seis anos. EFE