EUA interceptam ataque de foguetes contra aeroporto de Cabul na véspera da conclusão da retirada americana

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CABUL — As defesas antimísseis dos Estados Unidos interceptaram ao menos cinco foguetes lançados contra o aeroporto de Cabul na madrugada desta segunda-feira. O incidente ocorreu na reta final da retirada dos combatentes americanos e de seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) do Afeganistão, prevista para terminar amanhã, pondo fim a duas décadas de ocupação do país da Ásia Central e à guerra mais longa da História americana.

O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico de Khorasan, conhecido pela sigla em inglês Isis-K, em uma mensagem no Telegram. Inimiga comum do Talibã e dos Estados Unidos, a organização terrorista é a mesma responsável pelo atentado da última quinta-feira, que deixou mais de 180 mortos, entre eles 13 militares americanos, nos arredores do aeroporto de Cabul.

Segundo a mídia afegã, os foguetes foram lançados da parte posterior de um veículo e atingiram diferentes partes da capital afegã. Em um comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, confirmou a interceptação, mas disse que as operações no aeroporto "continuam sem interrupção". Não há relatos de mortos ou feridos.

O presidente Joe Biden, afirmou Psaki, foi brifado sobre o incidente durante a madrugada e "reconfirmou sua ordem para que os comandantes redobrem seus esforços para priorizar que seja feito o necessário para proteger nossas forças em solo". No domingo, horas após emitir um alerta instruindo seus cidadãos a deixar os arredores do aeroporto diante do risco iminente de novos atentados, Washington realizou um ataque com mísseis disparados de drones contra um possível carro-bomba do Isis-K.

A explosão do veículo, que supostamente seria usado pelo Estado Islâmico para um novo atentado, teria matado ao menos dez civis afegãos — entre eles, um intérprete que havia trabalhado ao lado dos americanos e seus filhos. O Talibã confirmou a morte de sete civis, criticando os EUA por não o terem avisado sobre a operação "ilegal".

À medida que a data limite para a saída das tropas ocidentais se aproxima, disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby, as ameaças continuam sendo "reais, ativas e, em alguns casos, são muito concretas", classificando o momento atual como "particularmente perigoso". O Talibã, por sua vez, disse esperar que os atentados do Isis-K cessem quando os EUA deixarem o solo afegão.

— Esperamos que os afegãos sob influência do Isis-K abandonem suas operações assim que virem a entrada em vigor de um governo islâmico depois da saída das potências estrangeiras — disse o porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, em uma entrevista para a AFP no fim de semana. — Se [os integrantes do Estado Islâmico] criarem uma situação de guerra e continuarem com suas operações, o governo islâmico (...) tomará conta deles.

Muitas das lideranças terroristas veem o Talibã como "apóstata", considerando que eles não aplicavam de forma correta os preceitos do Islã e que se mostravam abertos a conversas com os EUA. Ao assumir a autoria do ataque do dia 26, por exemplo, o Isis-K acusou o Talibã de "manter uma parceria" com os EUA para retirar "espiões" do Afeganistão.

Cerca de 114,4 mil pessoas foram retiradas do Afeganistão pelas forças ocidentais desde que o Talibã retomou o poder, em 15 de agosto. São em sua maioria cidadãos estrangeiros e afegãos que trabalharam ao lado dos invasores. Com a aproximação do prazo final para a retirada, os militares americanos mudaram o foco de fazer a triagem e transportar civis afegãos por via aérea para levar seu próprio pessoal para casa.

Nas últimas 24 horas, apenas 1.200 pessoas foram retiradas, uma fração dos 21 mil que chegaram a ser removidos em um único dia da semana passada. Entre os removidos está a "equipe central" de diplomatas americanos baseados em Cabul, disse Washington, que não informou se isso inclui o encarregado de negócios, Ross Wilson.

O número total de militares dos EUA no aeroporto, que chegou a cerca de 6 mil, já havia caído para 4 mil no final de semana. As remoções que continuam nesta segunda, diz a Reuters, priorizam pessoas consideradas sob risco extremo. Outros países também fizeram pedidos de última hora para trazer pessoas dessa categoria.

Acredita-se, contudo, que centenas de milhares de afegãos ainda estejam tentando fugir do país. Biden e outros líderes ocidentais reconheceram que muitos não sairão antes do prazo final de retirada, depois do qual o Talibã assumirá o controle do aeroporto de Cabul.

Com isso, os EUA e outros 97 países afirmaram, por meio de um comunicado emitido no domingo, que continuariam a acolher pessoas que fugirem do Afeganistão após a saída dos militares ocidentais e que haviam conseguido um acordo com o Talibã para permitir-lhes passagem segura.

O alto comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, por sua vez, fez um apelo nesta segunda-feira para que o Afeganistão mantenha suas fronteiras terrestres abertas para que seus cidadãos "possam exercer seu direito de buscar proteção internacional". Sozinhos, Irã e Paquistão já abrigam cerca de 2,2 milhões de refugiados afegãos, mais do que qualquer outro país do mundo, o que levou Grandi a instar outras nações a compartilharem "esta responsabilidade humanitária".

No domingo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que é improvável que os EUA mantenham diplomatas em solo afegão após o fim da retirada dos combatentes americanos. Para a Reuters, dois funcionários do governo americano afirmaram que o pessoal diplomático essencial do país em Cabul já havia saído do país na manhã desta segunda.

Não está claro se o embaixador interino, o encarregado de negócios Ross Wilson, estaria no grupo — espera-se que ele seja um dos últimos civis a deixar o país. A partir de agora, o mais provável, segundo o New York Times, é que Washington abra uma missão diplomática para o Afeganistão em algum outro país da região, possivelmente no Paquistão ou os Emirados Árabes, em parte para continuar a auxiliar os milhares de refugiados a obterem os documentos necessários.

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