‘EUA jogam lenha na fogueira’ e podem ‘ampliar conflito’, diz Rússia sobre entrega de foguetes à Ucrânia

A Rússia condenou com palavras firmes o anúncio dos EUA de que fornecerão foguetes pesados à Ucrânia. O porta-voz presidencial russo, Dmitry Peskov, disse em sua entrevista coletiva diária nesta quarta-feira que a Rússia não confia nas garantias de Kiev de que o Sistema de Foguete de Artilharia de Alta Mobilidade M142 (HIMAR, na sigla em inglês) não será usado ​​para atacar o território russo e acusou Washington de acirrar as tensões da guerra.

Horas depois, o chanceler russo, Sergei Lavrov, disse que o fornecimento dos lançadores de foguete avançados aumentava o risco de um "terceiro país" ser arrastado para o conflito.

Na terça-feira, uma autoridade americana disse a repórteres que os EUA planejam fornecer à Ucrânia o HIMAR, um sistema de maior precisão montado sobre veículos leves e com alcance de até 80 quilômetros, como parte de um novo pacote de ajuda militar à Ucrânia no total de US$ 700 milhões, cujos detalhes serão divulgados nesta quarta-feira.

— Acreditamos que os EUA estão deliberadamente jogando lenha na fogueira. Obviamente, eles estão mantendo a posição de lutar contra a Rússia até o último ucraniano — disse Peskov, citado pela agência Interfax.

Em um artigo publicado no New York Times na terça-feira à noite, o presidente americano, Joe Biden, vinculou o fornecimento das armas ao compromisso ucraniano de não utilizá-las para efetuar ataques dentro da Rússia.

Quando perguntado qual seria a resposta de Moscou se Kiev ignorasse esse compromisso e usasse esses sistemas de foguetes em território russo, Peskov disse:

— Não vamos falar com você sobre os piores cenários.

Questionado se a Rússia confia nas palavras do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, sobre o compromisso de não usar o sistema para atacar o território russo, Peskov respondeu:

— Não [confiamos]. Para confiar, você precisa ter experiência em casos em que as promessas foram cumpridas. Infelizmente, não existe essa experiência — disse Peskov. — Os Acordos de Minsk [de 2015] não foram cumpridos, caíram no esquecimento, e por culpa do lado ucraniano. Portanto, o lado ucraniano não tem um crédito especial de confiança conosco.

Peskov afirmou que as forças de defesa russas “veem todos os riscos, os avaliam sistematicamente e tomam as medidas apropriadas".

Peskov também disse que o fornecimento das armas não contribuirá para a retomada das negociações de paz, mas, pelo contrário, servirá para aumentar a tensão.

— Tais entregas não contribuem para despertar o desejo da liderança ucraniana de retomar as negociações de paz — disse.

Segundo o porta-voz, o presidente russo, Vladimir Putin, não descarta se reunir com Zelensky, mas o encontro “precisa estar devidamente preparado". Peskov disse que Moscou trabalha em um documento de paz que "estava paralisado há muito tempo e não foi reiniciado".

Além de Peskov, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, disse à agência de notícias estatal RIA Novosti que Moscou vê a ajuda militar dos EUA à Ucrânia como “extremamente negativa”.

— As tentativas de apresentar a decisão como contendo um elemento de "autocontenção" são inúteis — disse Ryabkov. — O fato de os Estados Unidos, à frente de um grupo de Estados, estarem engajados em uma entrega proposital de armas ao regime de Kiev é uma coisa óbvia.

Na segunda-feira, Biden havia descartado o envio de sistemas de lançamento de foguetes que pudessem alcançar a Rússia. Há um mês, o comandante das Forças Armadas da Ucrânia disse que o sistema era "crucial" para conter os ataques de mísseis da Rússia.

Conforme a guerra se prolonga, o governo americano amplia progressivamente o tipo de armamentos que fornece aos ucranianos. O pacote mais recente também incluirá mísseis antitanque Javelin, artilharia, helicópteros e veículos táticos.

Essa ajuda militar significa que os EUA estão caminhando por uma linha fina, tentando levar o auxílio aos limites de suas possibilidades, sem contudo deflagrar uma guerra mais ampla com a Rússia.

Em seu artigo na terça-feira, Biden disse estar determinado em apoiar a Ucrânia em suas tentativas de expulsar os invasores russos, mas também ofereceu garantias específicas para Putin, descartando o uso de armas de destruição em massa e dizendo que não quer derrubar o presidente russo.

“Deixe-me ser claro: qualquer uso de armas nucleares nesse conflito em qualquer escala seria completamente inaceitável para nós, assim como para o resto do mundo, e acarretaria graves consequências", disse.

“Por mais que eu discorde do sr. Putin, e considere suas ações um ultraje, os Estados Unidos não tentarão promover sua deposição em Moscou. Enquanto os Estados Unidos ou nossos aliados não forem atacados, não estaremos diretamente envolvidos neste conflito, seja enviando tropas americanas para lutar na Ucrânia ou atacando forças russas.”

O governo de Biden já enviou à Ucrânia cerca de US$ 5 bilhões em mísseis antitanque e antiaéreos, veículos aéreos não tripulados, helicópteros e outros equipamentos militares.

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