EUA pode ter balanço mais sombrio de COVID-19; Europa abre com prudência

Por Nicolas GAUDICHET com escritórios da AFP no mundo
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Policial patrulha estação central de Bruxelas em 4 de maio de 2020 para comprovar que os usuários cumprem as regras de distanciamiento social

Os Estados Unidos, com seu presidente à frente, admitiram nesta segunda-feira (4) que as mortes por COVID-19 podem ser muito mais numerosas que o previsto, enquanto a suspensão do confinamento se acelera na Europa, onde a UE arrecadou 7,4 bilhões de euros na busca por uma vacina.

Após várias semanas de restrições, uma brisa de liberdade, ainda que limitada, soprava em vários países europeus: os parques reabriram na Itália, assim como os locais de culto e os museus na Alemanha, enquanto em muitas cidades se formaram filas em salões de cabeleireiro, os locais mais frequentados nesta segunda-feira após quase dois meses de confinamento.

Mas a reativação é prudente no velho continente e muito limitada devido ao temor de uma nova onda de infecções. As normas de distanciamento social seguem em vigor.

Nos Estados Unidos, que acumulam um terço dos casos de COVID-19 registrados no mundo, se dá como certo que a cifra de 100.000 mortes será superada provavelmente em junho, segundo múltiplos modelos epidemiológicos que descartam uma paralisação súbita dos contágios no verão no hemisfério norte.

Um dos grandes modelos da pandemia, o do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), revisou para cima nesta segunda a previsão de óbitos relacionados com o novo coronavírus nos Estados Unidos. Segundo seu novo cálculo, até 4 de agosto o número de mortos será de 134.000 pessoas no país ao invés das 72.000, previstas anteriormente, devido à suspensão do confinamento prematura decidida em algumas regiões.

No domingo, o presidente Donald Trump, acusado por seus críticos de não ter agido com rapidez suficiente à pandemia, reconheceu que o país vai "perder 75.000, 80.000, 100.000 pessoas". Até agora, os mortos por COVID-19 superam os 68.000 nos Estados Unidos.

Apesar disso, o Senado celebrou pela primeira vez em mais de um mês sua primeira reunião regular, a "mais estranha da história moderna", segundo o líder da minoria democrata, Chuch Schumer.

Na noite desta segunda, a Universidade Johns Hopkins, que atualiza os números da pandemia no país, registrou uma redução no número de mortos no prazo de 24 horas.

No levantamento feito entre as 20h30 locais (21h30 de Brasília) e o mesmo horário de domingo, 1.015 mortes por coronavírus foram registradas, o menor número diário em um mês.

Esta contagem revisou para 68.689 o número de mortos pela epidemia da COVID-19 no país.

- Precauções infinitas -

Em Bruxelas, uma campanha global para arrecadar fundos organizada pela União Europeia conseguiu 7,4 bilhões de euros (cerca de 8 bilhões de dólares) para financiar as pesquisas de uma vacina.

Organizadora desta conferência de doadores - apoiada pelos principais líderes europeus, mas boicotada por Washington -, a presidente da Comissão Europeia (braço executivo da UE), Ursula von der Leyen, assegurou que uma vacina é "a melhor oportunidade coletiva de vencer o vírus".

"Temos que desenvolvê-la, produzi-la e estendê-la por todos os cantos do mundo a preços acessíveis", afirmou.

Intensificando as precauções, quinze países europeus começaram nesta segunda a aliviar as medidas de confinamento, impostas há semanas.

A começar pela Itália, país mais castigado pela pandemia no continente, com 29.079 mortos, cujos moradores podem sair, segundo um programa de desconfinamento que varia de acordo com a região.

Em Roma, Stefano Milano, de 40 anos, não escondeu sua "alegria" por ter recuperado a liberdade, mas também admitiu sentir "medo" de que uma segunda onda atinja seus pais idosos.

"A emergência não terminou", advertiu a ministra do Interior italiana, Luciana Lamorgese.

A pandemia matou 250.203 em todo o mundo desde que surgiu na China, em dezembro, sendo 145.023 na Europa.

Na Espanha (25.428 mortos), os cidadãos começaram a redescobrir no sábado a felicidade de voltar às ruas.

Atenas também saiu da letargia, assim como outros países, com uma avalanche aos salões de cabeleireiro e às barbearias. "Precisava sair, retomar a vida social e aparar a barba para não parecer um urso", brincou Alexis Protoppapas.

No leste europeu, os terraços das cafeterias e restaurantes reabriram na Eslovênia e na Hungria, exceto na capital, Budapeste. Na Polônia hotéis, shopping centers, bibliotecas e alguns museus puderam reabrir.

Em outros países europeus, o desconfinamento ainda terá que esperar. Na França, com 25.201 mortos, começará em 11 de maio, por regiões, enquanto o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, prevê anunciar um plano de alívio das medidas no domingo para o Reino Unido (com 28.734 falecidos).

Fora da Europa, Nigéria, Tunísia e Líbano também suspenderam algumas restrições nesta segunda-feira. "Acabamos de passar um mês de fome e pesar. Agora, posso voltar a ganhar dinheiro e alimentar minha família", declarou Ganiyu Ayinila, um motorista de micro-ônibus de Lagos.

Na Índia, a reabertura de lojas de bebidas alcoólicas se traduziu em confusão, apesar da determinação de distanciamento social. E na Turquia, a partir da prósima semana os maiores de 65 anos e os menores de 20 poderão sair.

Em Israel, o governo anunciou a supressão completa das restrições à mobilidade impostas aos cidadãos.

- Mortes em pleno auge -

Em outras regiões do planeta, a pandemia está em pleno auge, como na Rússia (1.280 mortos) e na América Latina, onde o número de casos passou de 264.000 e os mortos se aproximam de 15.000. Brasil, Equador e Peru concentram 86% dos mortos e 77% dos contagiados na região.

O presidente Jair Bolsonaro reiterou diante de milhares de seguidores em Brasília seu discurso anti-confinamento, em um momento em que o número de casos é de 107.780 e o de mortos, 7.321.

No Equador, mais de uma centena de municípios, incluindo Quito e Guayaquil, estenderão o confinamento ordenado há sete semanas.

No México, a antiga residência presidencial, conhecida como Los Pinos, será usada a partir desta segunda como abrigo para pessoal médico do seguro social, que atende pacientes de COVID-19.

Em Honduras, centenas de pessoas bloquearam nesta segunda uma estrada ao leste de Tegucigalpa para impedir o sepultamento de vítimas de COVID-19 em um cemitério próximo a suas comunidades.

- E as escolas? -

Reabrir os estabelecimentos de ensino se tornou um quebra-cabeça.

Na Áustria, pioneira na iniciativa, alunos do último ano do ensino médio voltaram às aulas, assim como em alguns estados da Alemanha.

No Canadá, o primeiro-ministro, Justin Trudeau, admitiu que não sabe ainda se enviaria seus filhos para a escola se estivesse em Quebec, província que prevê a volta às aulas em 11 de maio. "Será uma decisão extremamente pessoal para muitos pais", disse.

A reabertura de estabelecimentos comerciais em Montreal foi adiada nesta segunda por uma semana devido à escassez de leitos nos hospitais e ao risco de que uma suspensão do confinamento aumente o número de pacientes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só a descoberta de uma vacina ou de um tratamento permitirá pôr fim à pandemia que paralisa a economia mundial.

Há cerca de uma centena de projetos de vacinas contra a COVID-19 em todo o mundo, inclusive uma dezena em fase de testes clínicos, segundo dados da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

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