Justiça americana decide não indiciar policial que matou menino negro

Por Mira OBERMAN
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(Arquivo) Protestantes seguram cartaz que pede "Justiça para todos" durante manifestação em Washington, em 13 de dezembro de 2014, após o assassinato de Eric Garner, Michael Brown, Tamir Rice e Trayvon Martin pelas mãos de policiais brancos

Um grande júri americano anunciou que não irá indiciar o policial branco que matou em novembro de 2014, em Cleveland, Ohio (norte dos EUA), Tamir Rice, um menino negro de 12 anos que carregava uma arma de brinquedo.

"Baseando-se nos elementos de prova que consultou e no recurso da polícia à força letal no marco da lei, o grande júri decidiu não apresentar acusações criminais", declarou o promotor Tim McGinty em relação ao caso que comoveu a opinião pública.

O assassinato foi filmado por uma câmera de vigilância, e as imagens de vídeo mostram dois policiais intervindo em uma praça na cidade de Cleveland, após terem sido alertados sobre a presença de um jovem armado. Um policial abriu fogo segundos mais tarde, matando o jovem Rice com duas balas no abdômen.

O caso, ocorrido em 22 de novembro de 2014, provocou indignação entre muitos americanos, que já estavam realizando manifestações para protestar contra a impunidade de policiais brancos implicados na morte de negros.

Um ano depois, o Ministério Público concluiu que a decisão da polícia de atirar em Rice foi justificada porque o jovem poderia ser considerado uma ameaça. Os jurados concordaram com este ponto de vista.

"Em resumo, levando em conta esta combinação de erros humanos, descuido e comunicação truncada, as provas não evidenciam conduta criminosa da polícia", ressaltou o promotor McGinty.

"Seria irresponsável e pouco razoável que a lei exija que um oficial da polícia espere ver uma arma real" antes de agir, declarou.

A morte de Rice aconteceu poucos dias antes de um júri decidir não indiciar um agente da polícia branco que matou com um disparo um adolescente desarmado, Michael Brown, em Ferguson, subúrbio de St. Louis, Missuri, em agosto de 2014.

Decepção

A mãe de Tamir, Susan Rice, pedia que os dois policiais fossem condenados.

"A família de Tamir está triste e desapontada, mas não surpresa. Durante meses, tornou-se claro que o promotor do condado de Cuyahoga, Timmothy McGinty, enganou e manipulou o grande júri, a fim de orquestrar um voto contrário à acusação", disseram em comunicado os advogados da família do menino morto.

Eles também pediram que o Departamento de Justiça conduzisse sua própria investigação sobre a morte de Tamir.

O não indiciamento dos policiais "não traz nenhuma respostas às perguntas fundamentais", segundo Brooks Cornell, presidente da NAACP, a maior organização de defesa dos direitos das pessoas negras dos Estados Unidos.

Cornell pediu aos seguidores da NAACP a continuarem a luta "por Tamir Rice e muitos outros" diante dos tribunais e nas urnas.

Neste contexto, o governador de Ohio, John Kasich, exortou as pessoas a manter a calma em meio a temores de novos protestos.

"Estou bem ciente de que, após esta decisão, muitas pessoas vão se perguntar se a justiça foi feita", declarou o candidato eleito nas primárias republicanas, em um comunicado.

"Mas todo mundo vai perder, se cedermos à raiva e à frustração", acrescentou.

Enquanto isso, em Nova York, dezenas de pessoas protestavam, tentando bloquear as ruas para expressar sua indignação com a decisão do júri em Ohio.