EUA: relatório do governo descreve trauma de crianças migrantes separadas dos pais

(Arquivo) Uma menina hondurenha chora enquanto a mãe é revistada perto da fronteira entre EUA e México em McAllen, Texas, em 12 de junho de 2018

A política de separação de famílias migrantes nos Estados Unidos do governo de Donald Trump piorou "o sofrimento psicológico" de muitas crianças já marcadas por experiências traumáticas - revela um informe oficial publicado nesta quarta-feira (4).

Em 2018, Trump declarou uma política de "tolerância zero" na fronteira com o México, o que levou à separação de centenas de famílias. A maioria delas é formada por centro-americanos fugindo da pobreza e da violência em seus países.

"As crianças separadas mostraram mais medo, sentimentos de abandono e de estresse pós-traumático do que as crianças que não haviam sido separadas", escreve o inspetor-geral do Departamento de Saúde em um informe sobre as visitas realizadas em meados de 2018 por suas equipes a 45 centros de acolhida para menores migrantes.

"Alguns expressavam uma dor aguda que os fazia chorar sem parar", outros "se negavam a comer, ou a participar das atividades", e os que não entendiam por que estavam separados de seus pais "sofreram altos níveis de angústia mental", acrescenta o escritório do inspetor-geral, um órgão que supervisiona de maneira independente as estruturas subordinadas ao Departamento.

Segundo o relatório, "a separação de famílias e um processo de reunificação desordenada se somou ao trauma" dos menores que já enfrentavam abusos, ou violência, em seus países de origem, ou na rota migratória.

As tragédias sofridas por estas famílias, oriundas principalmente de Guatemala, Honduras e El Salvador, geraram preocupação inclusive nas fileiras do Partido Republicano de Trump. O presidente pôs fim a esta política em junho, enquanto um juiz ordenava a reunificação das famílias divididas.

À época, as autoridades identificaram mais de 2.700 crianças que deveriam ser reunidas com seus pais.

Em paralelo, foram endurecidas as normas para a entrega de migrantes menores a "patrocinadores" em todo país, o que alongou a duração da estada destas crianças e adolescentes nos centros de acolhida do Departamento da Saúde. Em novembro de 2018, registrou-se um pico de 93 dias em média.

Essa demora gerou "um maior nível de desconfiança, desesperança e frustração entre as crianças, com mais casos de mutilação, ou ideias suicidas", completou o inspetor-geral.

Os profissionais da Saúde disseram se sentir sem recursos diante da situação, comparando sua ação a um simples "curativo" para feridas profundas.

O relatório propõe o reforço no treinamento do pessoal e o acesso a psiquiatras externos, assim como de transferência dos casos mais graves para estruturas especializadas.