EUA repatria um prisioneiro de Guantánamo, a primeira transferência no governo Biden

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Manifestantes vestidos com uniformes de prisioneiros da Baía de Guantánamo marcham em frente ao Capitólio em Washington DC, em janeiro de 2020

Os Estados Unidos anunciaram nesta segunda-feira(19) que repatriaram um marroquino detido em Guantánamo, a primeira transferência de um prisioneiro desta unidade realizada no governo Joe Biden, que reafirmou seu objetivo de fechar a polêmica prisão militar localizada na ilha de Cuba.

Abdul Latif Nasir, nascido em 1965 em Casablanca, ingressou na rede islâmica Al Qaeda no Afeganistão, onde lutou contra os militares dos EUA em 2001. Ele foi entregue às autoridades do Marrocos na manhã desta segunda-feira, segundo o Pentágono.

Em Rabat, o juiz anunciou nesta segunda-feira a abertura de “uma investigação pelo seu alegado envolvimento na perpetração de atos terroristas”.

“Os efeitos jurídicos serão determinados pelo Ministério Público à luz dos resultados da investigação”, disse o promotor público em nota.

Nasir, preso em 2002, foi apontado por fornecer armas à Al Qaeda, mas nunca foi acusado de nenhum crime.

Sua transferência eleva para 39 o número de detidos na prisão da base militar dos Estados Unidos na Baía de Guantánamo, aberta em 2002 para abrigar prisioneiros de guerra suspeitos de serem cúmplices da Al Qaeda após os ataques de 11 de setembro de 2001 a Nova York e ao Pentágono.

Outros dez prisioneiros, que não são mais considerados uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, podem ser libertados, além de outros 17.

A saída de Guantánamo depende da disponibilidade do seu país de origem ou de um país terceiro em recebê-los.

"Nosso objetivo é fechar a Baía de Guantánamo", reafirmou a porta-voz de Joe Biden, Jen Psaki, na segunda-feira, sem dar data.

O Departamento de Estado elogiou o papel do Marrocos na transferência de Nasir e aproveitou a oportunidade para pedir a outros países que repatriem seus cidadãos jihadistas da Síria, onde eles estão detidos nos campos das Forças Democráticas Sírias, aliadas dos Estados Unidos.

- "Avanço encorajador" -

A poderosa associação americana de direitos civis ACLU deu as boas-vindas à notícia, instando os Estados Unidos a fazerem o mesmo "urgentemente" com outros prisioneiros exonerados.

"Este é um avanço encorajador. Foi uma farsa que o Sr. Nasser continuaria a definhar em Guantánamo depois de ser liberado para transferência para o Marrocos cinco anos atrás", disse Hina Shamsi, diretora do projeto de segurança nacional da ACLU, em um comunicado.

“Acabar com duas décadas de detenção militar injusta e abusiva de muçulmanos em Guantánamo é uma obrigação de direitos humanos e uma necessidade de segurança nacional”, acrescentou.

A libertação de Nasir havia sido recomendada em 2016 pelo governo do democrata Barack Obama (2009-2017), do qual Biden foi vice-presidente. Mas a transferência, "sujeita a garantias de segurança e tratamento humano" segundo o Pentágono, nunca ocorreu durante a presidência do republicano Donald Trump, que governou até janeiro passado.

Assim que assumiu o poder, em 2009, Obama ordenou o fechamento de Guantánamo, com a ideia de que os prisioneiros seriam levados para o território continental dos Estados Unidos para serem julgados por tribunais civis.

Mas a decisão impopular foi bloqueada no Congresso. Obama então preferiu libertar silenciosamente centenas de detidos cuja libertação havia sido aprovada pelo Conselho de Revisão Periódica estabelecido em 2011. Essas autorizações foram suspensas sob Trump.

Mas Biden as retomou e desde janeiro aprovou a libertação de cinco internos. "A administração Biden continua comprometida com um processo cuidadoso e completo para reduzir de forma responsável a população carcerária e, por fim, fechar a prisão de Guantánamo", disse a repórteres um alto funcionário do governo de Biden que pediu anonimato.

Ele se absteve de especificar quantas negociações estavam em andamento com os países que provavelmente receberiam detidos e quais países estavam interessados.

A prisão de Guantánamo, denunciada por detenções ilegais, violações dos direitos humanos e tortura, é uma questão espinhosa para Washington.

O local abrigou até 780 “prisioneiros de guerra”,apesar das frágeis provas da participação da maioria nos eventos denunciados. Muitos foram torturados em locais secretos da CIA antes de serem transferidos para Guantánamo.

Dez detidos de Guantánamo, incluindo Khalid Sheikh Mohammed, o suposto autor intelectual dos ataques de 11 de setembro, aguardam julgamento por um comitê militar, que emitiu apenas duas condenações em duas décadas.

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