EUA ridicularizam acusação de conspiração na morte de Chávez

O pai do presidente Hugo Chávez chegou na noite de ontem ao velório do filho, em Caracas, após sua ausência na véspera gerar uma série de especulações. No centro, ele conforta a esposa, Elena ... mais 
O pai do presidente Hugo Chávez chegou na noite de ontem ao velório do filho, em Caracas, após sua ausência na véspera gerar uma série de especulações. No centro, ele conforta a esposa, Elena Frías. menos 
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Associated Press | Foto de Miraflores Press Office
sex, 8 de mar de 2013 04h12min BRT

Washington, 6 mar (EFE).- O presidente venezuelano Hugo Chávez morreu ontem convencido que era vítima de uma conspiração dos Estados Unidos, uma acusação ridicularizada por Washington, mas que, segundo afirmaram especialistas nesta quarta-feira, foi alimentada pelas complicadas relações entre os dois países.

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Chávez faleceu em decorrência de complicações de um câncer na zona pélvica jamais detalhado por seu governo, após tentar forjar, ao longo de 14 anos, um movimento bolivariano de contrapeso aos EUA na região.

Chávez sobreviveu a um golpe militar de 48 horas em abril de 2002, que ele atribuiu ao apoio tácito da Administração de George W. Bush, e jamais ocultou seu desdém pelo "imperialismo ianque".

Na terça-feira, o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou durante um discurso televisivo que "inimigos históricos" do país "buscaram o ponto certo para atingir a saúde" de Chávez, e pediu que uma comissão científica confirme que o presidente "foi atacado".

Em resposta, um porta-voz do Departamento de Estado, Patrick Ventrell, tachou de "absurda" a acusação de que os EUA estavam interessados em causar a doença de Chávez e rejeitou que Washington esteja "envolvido em qualquer tipo de conspiração para desestabilizar" a Venezuela.

Segundo alguns analistas consultados hoje pela Agência Efe, as acusações do governo de Caracas não surpreendem, levando em conta o nível atual das relações bilaterais.

Manuel Suarez-Mier, professor da American University e colunista do jornal mexicano "Excelsior", disse que "é típico dos regimes populistas recorrer a explicações mágicas e a teorias da conspiração".

"Sempre há uma teoria de complô. É uma combinação de ignorância e paranoia. Para ficar bem com o povo que dizem representar recorrem a estas teorias para culpar outros de seus fracassos", enfatizou o analista.

"Há toda uma história negra dos EUA na América Latina, mas é bastante antiga; as tentativas documentadas dos EUA para assassinar Fidel Castro, por exemplo, são uma comédia de erros magnífica, e o caso é que os populistas atribuem a seus inimigos políticos seus fracassos. Os EUA deixaram de ser o imperialismo", comentou.

Porém, Mark Weisbrot, co-diretor do Centro para a Pesquisa Econômica e Política (CEPR) em Washington, ressaltou que os EUA "fizeram tudo o que podiam para desfazer-se" de Chávez, e inclusive deram apoio político e econômico à oposição "e seguem fazendo isso".

"Em parte devido à oposição de EUA, Chávez foi satanizado por praticamente todos os principais meios de comunicação do Ocidente. Os EUA perderam boa parte de sua influência na América Latina, especialmente na América do Sul, por causa de Chávez", opinou Weisbrot.

Em dezembro de 2011, durante um discurso televisivo dirigido a militares, Chávez sugeriu que os EUA haviam "inventado a tecnologia para propagar o câncer" em alguns líderes latino-americanos.

Embora Chávez tenha insistido que não estava fazendo acusação alguma, afirmou que "não seria estranho se eles (EUA) desenvolvessem a tecnologia para induzir o câncer e ninguém soubesse até agora".

Na aquela ocasião, vários líderes latino-americanos, todos de esquerda, tinham recebido diagnóstico de câncer: Cristina Kirchner, na Argentina; Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai; além da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Após extirpar um tumor na tireóide, os médicos de Cristina determinaram que não havia células cancerosas.

A escritora e colunista Ann Louis Bardach disse à Efe que a acusação de Maduro na terça-feira está "próxima da demência".

"Parece que o que estão fazendo com isso é aumentar o antiamericanismo para impulsionar a candidatura (à presidência) de Maduro", assinalou.

"Quando há um homem como Chávez, com pouca disciplina em sua saúde, que não dormia mais de quatro horas diárias, bebia 26 xícaras de café e até poderia ter tido transtorno bipolar, não são necessárias teorias de conspiração para que desenvolva uma doença", acrescentou Ann Louis.

Por sua vez, o oncologista peruano e ex-presidente da Sociedade Americana do Câncer, Elmer Hortas, declarou à Efe que, em todo caso, o câncer "não se contagia nem se inocula" e que a maioria dos pacientes não morre de câncer em si, mas das complicações que este produz. EFE

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