EUA só sabem dar sermão e não resolvem seus problemas, diz queniano que satirizou eleição

FÁBIO ZANINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "As seções eleitorais devem ser abertas em 48 horas nos EUA, com o regime autoritário de Donald Trump tentando consolidar seu controle sobre a turbulenta, rica em petróleo e nuclearmente armada nação do norte-americano. Analistas estão céticos de que a eleição encerrará meses de violência política." Autor desta descrição inusitada da eleição americana, o cartunista queniano Patrick Gathara, 48, mostrou que é possível inverter o mantra de que uma mentira pode ser contada dizendo apenas verdades. Nos dois dias anteriores à eleição de terça (3), Gathara construiu um fio no Twitter tratando da votação em linguagem parecida com a usada por jornalistas, analistas e políticos ocidentais ao falar da África. A ideia foi um sucesso, com quase 40 mil visualizações e 20 mil compartilhamentos. "Eu sempre tive problemas com determinada linguagem e determinados termos que a mídia ocidental usa ao se referir à África, mas que nunca são aplicados a países ocidentais", diz ele em entrevista à reportagem. Em seu fio, recheado de ironias, há sutilezas que apenas os africanos perceberiam, como descrever Washington como "a capital à beira-mar", como se os leitores fossem ignorantes sobre sua localização. Ou ainda dizer que a pandemia "exacerbou tensões étnicas já carregadas" no país, misturando os estereótipos sobre tribalismo africano aos protestos de movimentos negros como o Black Lives Matter. "Eu procuro olhar como o poder global é codificado por meio da linguagem. Você nunca ouve os EUA serem descritos como 'nação rica em petróleo', apesar de terem muito petróleo, como ocorre na África", afirma. A confusa apuração da eleição, com a ameaça de Trump de recorrer à Suprema Corte para se manter no cargo, deu um tom de presciência ao fio no Twitter. Na véspera da votação, ele escreveu: "Há preocupação com relatos da imprensa local de que Trump pretende declarar vitória antes da eleição. Emissários pediram ao autocrata que todos os votos sejam contados". Premiado cartunista político em seu país, Gathara é também comentarista sobre temas africanos, com artigos publicados em diversos jornais e análises carregadas de ironia que abastecem uma conta no Twitter com 150 mil seguidores. Ele disse que teve a iniciativa de satirizar a eleição americana para chamar a atenção para o telhado de vidro dos EUA ao pregar a democracia pelo mundo. "Nos últimos anos, muitas eleições na África foram melhores do que as dos EUA. A África investiu em tecnologia e sistemas para dar mais credibilidade à votação, enquanto os EUA só sabem dar sermão e não prestam atenção em seus próprios problemas", diz. Ele reconhece que o continente também está longe de ser modelo de eleição para o planeta. Pleitos livres e sem suspeitas de fraudes, em que há alternância de poder, seguem sendo a exceção na África. Mas Gathara cita uma série de ingredientes inusitados da eleição americana que parecem espantosos mesmo aos olhos de um africano acostumado à rotina de votações polêmicas. "Os americanos não têm um critério uniforme para decidir quem é eleitor e quem não é. O sistema é caótico e confuso", diz. Pior, claro, é o exótico sistema de eleição indireta dos EUA. "Na África, a situação em que a pessoa com mais votos não vence a eleição é chamada de fraude. Nos EUA, chama colégio eleitoral", ironiza. Ele menciona ainda a prática pela qual autoridades eleitas têm o poder sobre a definição dos limites geográficos dos seus próprios distritos. Frequentemente, é um processo que dá ampla margem à manipulação. "Quando as autoridades escolhem seus eleitores, e não o contrário, é um problema sério", diz. Gathara é conhecido pelo traço expressivo, com personagens que ostentam enormes cabeças e lábios desproporcionalmente grandes. Também é famoso pela acidez nos temas e por não poupar nenhum alvo. Em 2015, por exemplo, ele fez um cartum duro contra o ex-presidente dos EUA Barack Obama, que tem antepassados quenianos e por isso tem grande popularidade no país. Na ocasião, Obama visitava o Quênia, e Gathara o retratou como uma espécie de Jesus Cristo entrando em Jerusalém em cima de um burrico, sendo saudado como o Salvador por pessoas esquálidas. Enquanto isso, ao fundo da cena, um tanque e um míssil matam pessoas. "Obama melhorou simbolicamente a relação com a África, mas fundamentalmente não mudou em nada. Ele continuou as políticas do [ex-presidente] George Bush, matando pessoas, usando drones. O que é preciso é uma transformação, e isso Obama não fez", afirma. Ele torce por Biden, mas dentro do raciocínio de que é o mal menor. E admite uma certa satisfação pessoal com a turbulência na "nação rica em petróleo" da América do Norte. "Não apenas na África, acho que as pessoas ao redor do mundo estão sentindo um pouco de 'schadenfreude' [prazer com a desgraça alheia] nesse caso", diz.