EUA traçam estratégia para China: 'Não queremos Guerra Fria, mas defenderemos a lei internacional'

RIO - O secretário de Estado americano, Antony Blinken, esboçou nesta quinta-feira a estratégia da Casa Branca para a China, afirmando que a política americana não será baseada na busca por uma nova Guerra Fria, mas na ordem internacional e na diplomacia. Feito dias após a visita inaugural do presidente Joe Biden à Ásia, o discurso não trouxe novidades, mas foi o posicionamento mais detalhado dos democratas sobre sua postura diante de Pequim, 16 meses após chegarem ao poder.

Blinken indicou os parâmetros que deverão ser seguidos pelas agências e diplomatas americanos diante da China, mas sem detalhar os mecanismos que serão adotados. O secretário de Estado reforçou a importância da ordem estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, afirmando que não se tratam apenas de ambições ocidentais, algo também reiterado com frequência pelos chineses, que acusam os EUA de buscarem manter sua hegemonia.

Em curto prazo, a Rússia é uma ameaça mais imediata à ordem global devido à invasão na Ucrânia, mas Pequim representa um desafio maior para o futuro, disse Blinken em sua fala na Universidade George Washington, na capital americana. A audiência incluía, entre outras autoridades, o senador republicano Mitt Romney, um crítico do ex-presidente Donald Trump.

— A visão da China vai nos distanciar dos valores universais que mantiveram tanto do progresso do planeta nos últimos 75 anos — disse o secretário de Estado. — A China é o único país com a intenção de remodelar a ordem internacional e, cada vez mais, com o poder econômico, diplomático, militar e tecnológico para fazê-lo.

O objetivo americano, disse Blinken, não é causar uma nova Guerra Fria com a China, convencer Pequim a mudar seu sistema político, bloquear a posição chinesa como uma potência global ou forçar países a escolherem um lado. Ele prometeu, contudo, defender a lei internacional e “moldar o ambiente estratégico para Pequim para avançar nossa visão para um sistema internacional aberto e inclusivo“, resumindo-a em três palavras: “investir, alinhar e competir“.

— Vamos investir nas fundações da nossa força aqui em casa, na nossa competitividade, inovação, democracia. Vamos alinhar nossos esforços com nossa rede de aliados e parceiros, agindo com um propósito e causa comum — afirmou. — Vamos competir com a China para defender nossos interesses e construir nossa visão para o futuro. Encaramos esses desafios com confiança.

As relações entre as duas maiores economias do planeta ganharam ares mais tensos durante o mandato de Trump, com suas políticas antagônicas, e Biden é há muito pressionado para detalhar sua política para o gigante asiático e mobilizar mais seus aliados regionais. Outros desafios de política externa, como a caótica retirada do Afeganistão em 2021, pondo fim a duas décadas de invasão, e a guerra na Ucrânia, contudo, dividiram o foco dos democratas.

As declarações põem fim a um mês atribulado para os esforços americanos de conter a influência chinesa no Indo-Pacífico, começando com uma inédita cúpula em Washington para líderes do Sudeste Asiático no início do mês — uma tentativa de reafirmar o compromisso americano com a região, que Biden tachou como o começo de uma “nova era”.

Na semana passada, Biden visitou o Japão e a Coreia do Sul, onde teve reuniões bilaterais e participou da reunião do Quad, o Diálogo de Segurança Quadrilateral, que inclui o Japão, a Índia e a Austrália.

Durante sua visita a Tóquio, Biden disse que Washington estaria disposta a usar força para defender Taiwan caso a ilha fosse atacada pelos chineses, deixando de lado a política de "ambiguidade estratégica" adotada pelos presidentes americanos desde o reatamento com Pequim, na década de 1970. Horas depois, sua equipe voltou atrás e afirmando que sua política para a ilha, vista por Pequim como uma província rebelde, não mudou.

O princípio de “uma só China” também foi reafirmado por Blinken nesta quarta, se distanciando do tom adotado por Biden e afirmando que os EUA não apoiam a independência de Taipé, apesar de apoiar seus interesses. Por essa abordagem, os americanos reconhecem que Taiwan faz parte da China, mas continuam apoiando apenas a autodefesa da ilha, para onde nacionalistas chineses fugiram ao serem derrotados pelos comunistas na guerra civil de 1949.

— A nossa política não mudou, mas o que mudou é a crescente coerção chinesa — disse Blinken, citando o bloqueio à participação de Taiwan em organizações internacionais e as duras retóricas e atividades que "ameaçam a estabilidade regional".

Apesar da retificação feita pela Casa Branca, a declaração de Biden — que segue outras em tons similares, apesar de mais contidas —, foi mal vista por Pequim, que acusou os americanos de brincarem com fogo. Até mesmo peças menores do tabuleiro, como as Ilhas Salomão, um remoto país no Oceano Pacífico, vêm gerando controvérsia na disputa sino-americana.

Neste mês, a nação da Oceania firmou um acordo de segurança, negociado em segredo, com Pequim. Os detalhes do pacto são desconhecidos, mas tudo indica que ele permite aos chineses atracar navios militares nas ilhas e enviar soldados para treinar a polícia local. Países ocidentais temem que isso culmine na instalação de uma base militar na região, o que ambos os lados do acordo negam. Ainda assim, a presença militar chinesa na área abre precedentes para outras mudanças.

Também vazaram informações de que a China pretende firmar um pacto com dez nações do Pacífico Sul, incluindo acordos comerciais e de segurança. As informações vieram à tona pouco antes da visita do chanceler chinês, Wang Yi, que desembarcou nas Ilhas Salomão nesta quinta, antes de seguir viagem pela região.

A expectativa é de que os pactos sejam firmados no dia 30, em Fiji, oferecendo milhões de dólares em ajuda, acesso facilitado ao mercado chinês e a perspectiva de um acordo de livre-comércio. A China, em troca, treinaria a polícia local, agiria na segurança cibernética e obteria maior acesso a recursos naturais dessas ilhas, indicam informações preliminares que já causam alarde nos EUA e seus aliados.

Esperada há semanas, a fala de Blinken estava originalmente marcada para o dia 5 de maio, mas foi adiada após o secretário de Estado contrair Covid-19. Cogitou-se que o discurso, que não marca grandes rompimentos com a política corrente, fosse feito pela próprio presidente, mas a opção final foi por Blinken, em uma tentativa de demonstrar seriedade, mas também esfriar os ânimos.

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