EUA vai retirar rebeldes huthis do Iêmen da lista de terroristas

Shaun TANDON con Shatha YAISH en Dubái
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Tanque das forças pró-governo iemenitas na base militar de Nehm, na província de Sanaa, em 7 de abril de 2016

O governo dos Estados Unidos vai retirar os rebeldes huthis do Iêmen da lista de grupos terroristas, uma designação que as organizações humanitárias consideram desastrosas para os esforços de ajuda à população.

A ONU saudou a decisão de Washington, enquanto as partes envolvidas no conflito elogiaram os esforços de paz dos EUA neste país em guerra.

O secretário de Estado, Antony Blinken, anunciou na sexta-feira ao Congresso a medida, informou o Departamento de Estado.

"Notificamos formalmente o Congresso as intenções do secretário de revogar estas designações", afirmou um porta-voz do Departamento de Estado. A medida se tornará efetiva rapidamente.

Os huthis passaram a integrar a lista de organizações terroristas durante a administração de Donald Trump. Os grupos humanitários consideravam que a designação bloqueava sua ação no país.

A determinação dos Estados Unidos "trará profundo alívio a milhões de iemenitas que dependem da ajuda humanitária e das importações comerciais para atender às suas necessidades básicas", afirmou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em nota.

O porta-voz do Departamento de Estado explicou que a medida é baseada exclusivamente nestas considerações.

"Esta decisão não tem nada a ver com nossa percepção dos huthis e sua conduta condenável, que inclui ataques contra civis e o sequestro de cidadãos americanos", disse a fonte.

"Estamos comprometidos a ajudar a Arábia Saudita a defender seu território contra os ataques. Nossa ação está completamente justificada pelas consequências humanitárias desta designação de último minuto feita pela administração anterior e que, desde então, as Nações Unidas e organizações humanitárias deixaram claro que aceleraria a pior crise humanitária do mundo", completou.

Grupos humanitários afirmam que não têm outra opção a não ser dialogar com os huthis, que instalaram um governo de fato em boa parte do Iêmen, incluindo a capital Sanaa, e que a designação "terrorista" colocaria estas organizações sob risco de perseguição na justiça dos Estados Unidos.

O antecessor de Blinken, Mike Pompeo, anunciou a designação poucos dias antes de deixar o governo no mês passado, destacando os vínculos dos huthis com o Irã, grande inimigo do ex-presidente Trump, e um ataque mortal no aeroporto da segunda maior cidade do Iêmen em 30 de dezembro.

A medida de sexta-feira foi anunciada um dia depois da decisão do presidente Joe Biden de acabar com o apoio americano à ofensiva liderada pelos sauditas no Iêmen, onde mais de 80% da população depende de ajuda humanitária.

- "Bom começo" -

Os rebeldes huthis também receberam bem a abordagem do novo governo dos Estados Unidos.

Abdulelah Hajar, conselheiro do chefe do conselho político supremo, um órgão executivo huthi, disse à AFP no sábado que "cancelar a designação é um passo avançado em direção à paz".

Ele afirmou que o governo de Biden fez "um bom começo", mas alertou que a credibilidade das medidas "não será alcançada a menos que sejam provadas em terra e sentidas pelo povo iemenita - levantando o cerco e parando a guerra".

A Arábia Saudita, que lidera uma intervenção militar contra os huthis desde 2015, reagiu reafirmando seu compromisso com uma solução política no Iêmen.

O reino saudou o "compromisso de Biden de cooperar com o reino para defender sua soberania e combater ameaças contra ele", segundo a Agência de Imprensa Saudita.

Mas para os iemenitas, falar em uma solução está muito longe da realidade. "A guerra não vai acabar; ninguém quer que acabe. Isso é apenas propaganda", disse Huda Ibrahim, uma dona de casa de 38 anos da cidade portuária de Hodeida.

A guerra no Iêmen começou há mais de seis anos e envolve os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã, e as forças governamentais, respaldadas desde 2015 por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita.

Dezenas de milhares de pessoas, civis em sua maioria, morreram e milhões foram obrigadas a abandonar suas casas em consequência do conflito, que a ONU descreveu como a pior catástrofe humanitária da atualidade.

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