Eurocâmara condena repressão na Venezuela, que denuncia incentivo à violência

Ativistas opositores protestam contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, em 26 de abril de 2017

A Eurocâmara condenou nesta quinta-feira a "repressão brutal" na Venezuela contra "manifestantes pacíficos" e convocou Bruxelas a estudar "outras medidas que permitam à União restabelecer a plena democracia" no país latino-americano, ao que Caracas reagiu acusando o Parlamento europeu de incentivar a violência.

Por 450 votos a favor e 35 contra, os eurodeputados aprovaram uma resolução que condena "energicamente a repressão brutal exercida pelas forças de segurança venezuelanas, assim como pelos grupos armados irregulares, contra os manifestantes pacíficos".

A decisão do Parlamento Europeu "reflete o mesmo sentimento do povo da Venezuela" e envia a mensagem de que "não estamos sozinho", declarou em Bruxelas Lester Toledo, do partido opositor Vontade Popular, para quem este é "um grande passo" para a "transição democrática" no país.

Em Caracas, a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, considerou que a Eurocâmara aderiu à campanha de apoio a "violentos" grupos opositores ao condenar a "repressão brutal" na Venezuela.

"Incentivam os violentos, é a mesma campanha [da OEA] de dar suporte e incentivo aos violentos. É o mesmo que acontece com os grupos terroristas no Oriente Médio, quem dá suporte financeiro e logístico? Quem entrega as armas?", disse Rodríguez em uma coletiva de imprensa.

"Estão promovendo a violência na Venezuela cada vez que apoiam os fatores violentos, extremistas, que se preconfiguraram em espécies de grupos terroristas", acrescentou.

A Venezuela vive uma onda de manifestações desde 1º de abril. Os protestos começaram depois que o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) assumiu, no fim de março, as funções do Legislativo, único dos poderes controlado pela oposição, embora tenha voltado atrás após forte reação internacional.

As duas partes se acusam mutuamente pela violência, que já deixou 28 mortos até o momento, bem como centenas de feridos e detidos.

Neste contexto, a Eurocâmara condenou "energicamente a repressão brutal exercida pelas forças de segurança venezuelanas, bem como pelos grupos armados ilegais, contra os manifestantes pacíficos".

No debate realizado em 5 de abril, prévio a esta resolução, os parlamentares europeus se mostraram divididos entre aqueles favoráveis à adoção de uma posição firme e outros que defendem a mediação.

Na resolução adotada nesta quinta-feira, apresentada pelas quatro principais formações da Eurocâmara - PPE (direita), social-democratas, conservadores e liberais - os eurodeputados apoiam o processo de mediação, mas afirmam que estudam "outras medidas".

Neste sentido, pedem à chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, que "analise, junto com organizações internacionais e regionais, outras medidas que permitam restabelecer a plena democracia na Venezuela".

Do texto final, foi derrubado o pedido inicial do grupo liberal ALDE e dos conservadores do ECR de estudar "sanções específicas".

Uma das exigências dos manifestantes é um cronograma eleitoral, exigido igualmente pelos eurodeputados, que pedem a Caracas que apresente "o mais breve possível" um "calendário eleitoral que permita a realização de processos eleitorais livres e transparentes".

Apesar de o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ter se mostrado no domingo favorável à realização de eleições para governadores, que estavam previstas para dezembro passado, descarta adiantar a presidencial de 2018.

"Um calendário eleitoral para eleições livres e independentes é a única solução para sair deste impasse", indicou em um comunicado o presidente da la Eurocâmara, Antonio Tajani, para quem esta solução também passa pela libertação imediata de "todos os presos políticos".

Os parlamentares europeus da esquerda radical apresentaram uma proposta de resolução alternativa, que finalmente não foi votada, condenando a "ingerência externa permanente" na Venezuela.